Há cada vez mais pedidos de abate de cães e gatos sem justificação clínica

03/10

2011

às 14:46

Por: Sandra Moutinho, jornalista da agência Lusa

 

Há cada vez mais donos a pedirem a veterinários para abaterem os seus cães e gatos sem justificação clínica, o que revolta estes profissionais e as zoófilas, para quem, em tempo de crise, é que os amigos (dos animais) se conhecem.



"Sabemos de muitas pessoas que nunca deveriam ter tido um animal e que, à menor dificuldade, se querem livrar dele, nem que seja através da eutanásia, o que é revoltante", disse à agência Lusa a presidente da Liga Portuguesa dos Direitos do Animal (LPDA), a propósito do Dia Mundial do Animal, que se assinala amanhã.



"Os pedidos de eutanásia de que vamos tendo conhecimento são cada vez mais. É revoltante e, principalmente, preocupante", disse.



Para Maria do Céu Machado, "não há nada que justifique a morte de um animal sem motivos clínicos" e é isso mesmo que os voluntários tentam transmitir aos donos.



Igual papel desempenham os veterinários, que se vêem a braços com estes "pedidos incompreensíveis". Ana Marques, médica veterinária e directora da Clínica VetBelas, em Belas, disse à Lusa que desde o verão que tem recebido várias solicitações neste sentido, as quais recusa "veementemente".



"O meu papel é salvar vidas e não acabar com elas. Quando me propõem tal coisa, tento explicar - e ajudar - que há solução clínica para o caso do animal ou, se o dono não quer ficar com ele, que pode optar por dá-lo para adoção", referiu.



"Chegam-me os casos mais bizarros. Querem, mesmo por telefone, a garantia de que eu abato o animal, até sem o observar clinicamente. Quando me recuso, não hesitam em dizer que o vão fazer em outro lado", contou.



Para Ana Marques, não é a crise que justifica um acto destes - eticamente reprovável para estes profissionais -, pois "há muitos donos que mal têm dinheiro para comer e, no entanto, são cumpridores e prestam assistência ao seu animal, mesmo que isso represente ficarem sem uma refeição ou um medicamento".



A veterinária conhece bem este tipo de donos que "se quer livrar do animal a qualquer custo": "Eles traem o que sentem e o que são, além de, normalmente, trazerem um animal que já revela sinais de negligência".



Gonçalo da Graça Pereira, médico veterinário e mestre em etologia clínica e bem-estar animal, disse à Lusa que não tem recebido muitos pedidos de eutanásia, mas sente cada vez mais o impacto da crise na bolsa dos donos.



"Trabalho numa associação zoófila que, por praticar preços mais baixos, tem cada vez mais procura. São donos que querem muito ajudar o seu animal", disse.



Este médico veterinário já se recusou a fazer eutanásia, por considerar que essa era apenas uma hipótese e não a última alternativa para o animal em questão.



À Ordem dos Médicos Veterinários não tem chegado informação do aumento de pedidos de eutanásia, como disse à Lusa a bastonária Laurentina Pedrosa. "Do que sabemos, a eutanásia está a acontecer nas situações previstas de método clínico quando não existe outra solução clínica para a saúde do animal", observou.


A bastonária deixa, contudo, um alerta: "A eutanásia deve ser praticada em situações extremas e só quando não houver alternativa clínica".



Laurentina Pedrosa recorda que o papel do veterinário não é apenas clínico, mas deve ajudar a encaminhar o animal para outra solução, sempre que se aperceba de que os donos não estão em condições de lhe assegurar bem-estar.



Todos os anos é comemorado no dia 4 de Outubro o Dia Mundial do Animal, com o objectivo de chamar a atenção para as espécies em extinção, os maus tratos e exploração dos animais, assim como a importância dos animais para a sociedade.





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