Um consultor da ONU sobre conservação da natureza considerou hoje "extremamente fraca" a resposta de Luanda à ameaça de extinção da palanca negra gigante, símbolo nacional do país.
Brian J. Huntley, investigador sul-africano que nos últimos 40 anos tem estudado a biodiversidade angolana, falava em entrevista à Lusa em Lisboa, onde se encontra para participar numa conferência sobre a conservação em Angola.
"Se os ursos polares estivessem ameaçados, o Canadá gastaria milhões para resolver o assunto. Infelizmente, em Angola, apenas algumas pessoas fazem todo o trabalho", disse o investigador, quando questionado sobre o estado de conservação do símbolo nacional angolano.
A palanca negra gigante é um antílope raro que só existe na província angolana de Malanje e que se julgava extinto por não ser avistado desde 1982. Em 2005, no entanto, uma equipa liderada por Pedro Vaz Pinto, do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola, conseguiu obter fotografias e análises de DNA que comprovaram que a espécie não estava extinta.
Atualmente, estima-se que haja cerca de 100 espécimes e no santuário do Parque Nacional de Cangandala estão controlados 19 animais, acompanhados por um projeto de conservação.
Ainda assim, segundo Brian Huntley, a recuperação da palanca negra gigante "foi um grande sucesso devido a uma ou duas pessoas dedicadas. Não tem havido o apoio governamental que seria de esperar num símbolo nacional".
"O Governo gosta da publicidade que rodeia o assunto, mas comparado com qualquer outro país que visse o seu símbolo nacional ameaçado, a resposta de Luanda tem sido extremamente fraca", disse.
O investigador recordou que o quase desaparecimento daquela espécie se deveu sobretudo à guerra civil, que se prolongou desde 1975 e 2002. Nesse período, "quase todos os animais de grande porte" foram dizimados. Animais como os elefantes e os búfalos foram reduzidos em 90 por cento e outros, como os rinocerontes e as girafas foram mesmo extintos.
"Agora há alguma recuperação, algumas populações estão a recuperar. Não completamente, levará mais 10 ou 20 anos para reabilitar. Mas se o Governo puder proteger essas áreas e geri-las, elas irão reabilitar-se", defendeu.
Sublinhando que muitas das pessoas que se dedicam à conservação estão "frustradas com o Governo angolano", Brian Huntley admitiu ter esperança: "Estou otimista. Mas costumo dizer que um conservacionista tem de viver muitos anos".
As palancas negras gigantes são um símbolo do país, o que explica que os jogadores da seleção nacional de futebol sejam conhecidos como os 'palancas negras' e que este animal viaje pelo mundo pintado nos aviões da companhia aérea nacional TAAG.
A raridade deste animal e as suas caraterísticas únicas fazem com que esteja incluído, desde 1933, nas listas internacionais de espécies sob proteção absoluta.