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É comprido, mas esclarecedor.
Se por acaso, português amigo, te sentes deprimido, com o actual número de
desempregados no nosso país, lê o artigo que transcrevo.
"Com o mal dos outros, posso eu bem - diz o nosso povo.
Será. Mas saber que não estamos sozinhos sempre atenua a nossa mágoa.
As últimas sondagens nos EUA indicam que o desemprego desceu para 9,7%, mas não
te aflijas com isso. Pensa que sempre andámos a cheirar a cauda aos países ricos,
na mira de uma prometida convergência. Também neste caso existe um pequeno "delay"
que logo, logo recuperaremos.
Mas se achas que a garantia de 1,2% de diferença no nível de desemprego entre os
estado-unidenses e os portugueses te garante emprego certo, então emigra... se
te derem um visto.
A.M.
Publicado originalmente em inglês no WSWS dia 7 de Novembro de 2009.
“A taxa oficial de desemprego nos EUA atingiu 10,2% em Outubro, de acordo com o
relatório apresentado na sexta-feira, dia 6, pelo Departamento do Trabalho do
país. Trata-se da segunda vez apenas, desde a II Guerra Mundial, em que a taxa
atinge dois dígitos. Trata-se, assim, do mais alto índice desde 1983.
Os últimos relatórios evidenciam a verdadeira base da “reconstrução” clamada
pelo governo Obama: aumento do desemprego, aliado ao aumento da intensidade de
trabalho e ao corte nos salários. O relatório sobre o desemprego foi divulgado
apenas um dia após aquele que relatava um aumento na intensidade de trabalho,
numa jornada representada em menos dinheiro
A taxa de desemprego, medida com base numa pesquisa familiar, aumentou 0,4% em
Outubro, muito mais do que esperavam os economistas.
Como um todo, foram perdidos 190.000 empregos, acima dos 175.000 previstos pelos
economistas. Como um todo, a pesquisa familiar realizada — incluindo aqueles que
trabalham para si próprios e pequenos comerciantes — obteve um número muito
maior de empregos cortados: 558.000.
Cerca de 61.000 empregos na manufactura foram perdidos no mês, elevando o número
total perdido no sector desde Dezembro de 2007 para 2,1 milhões. Já no varejo o
número de empregos cortados no mês foi de 40.000. O setor de serviço, como um
todo, cortou 61.000 empregos.
A taxa de desemprego no Canada aumentou 0,2% em Outubro, para 8,6%. O país
perdeu 43.000 empregos no último mês, em contraste com a adição de 10.000
empregos prevista pelos economistas. Cerca de 400.000 empregos foram eliminados
no país desde Outubro de 2008.
Desde o início da recessão, 8,2 milhões de empregos foram destruídos nos EUA,
elevando o número de pessoas desempregadas no país para 15,7 milhões,
significativamente maior que a população de Cuba, da Grécia ou da Suécia. Dentro
desse quadro, cerca de 5,6 milhões, ou 35,6%, estão desempregados há 27 semanas
ou mais.
A taxa de desemprego mais ampla, que inclui aqueles que já deixaram de procurar
emprego e aqueles que trabalham apenas meio-período involuntariamente, atinge
números ainda mais alarmantes: 17,5% da população. Trata-se do maior número já
registado na história e cerca de 0,5% a mais que o de Setembro. O número de
pessoas que gostaria de ter um emprego de período integral mas não pode, somados
àqueles que tiveram as horas cortadas pela metade, atinge 9,3 milhões.
Diante disso, os economistas revisaram para cima sua estimativa da taxa de
desemprego para o próximo ano, com muitos deles prevendo algo além dos 11%. Tal
número representaria a mais alta taxa desde a II Guerra Mundial.
A última vez que a taxa ultrapassou os 10% foi durante a recessão de 1982-83,
quando atingiu 10,8%. As condições para os trabalhadores, hoje, entretanto,
estão muito piores que aquelas da década de 80. Nas três décadas que se
passaram, avançou uma consciente campanha pela flexibilização dos direitos
trabalhistas, que representou-se não apenas em cortes de empregos, como também
em corte de tempo de trabalho e imposição de trabalhos mais intensos.
Tudo isso se expressou no relatório divulgado na quinta-feira pelo Departamento
do Trabalho dos EUA, que divulgou um aumento de 9,5% na produtividade do
trabalho, em comparação com o último semestre do ano passado. A produtividade é
calculada de acordo com o produzido durante determinado período trabalhado. Nos
últimos seis meses, a produtividade aumentou no maior nível desde 1961.
O aumento da produtividade choca-se com o fato de que os trabalhadores têm de
fazer mais por menos. Muitas empresas cortam parte de sua força de trabalho e
forçam aqueles trabalhadores que ficaram a trabalhar por seus companheiros
demitidos.
A resposta de Obama aos dados divulgados na sexta-feira era uma mistura de
indiferença e ideias paliativas. Numa declaração na Casa Branca, afirmou: “Mesmo
que isso nos tome tempo e paciência, sou confiante na recuperação da economia.
Tenho confiança de que estamos no caminho certo”.
Em seguida, Obama defendeu que as medidas de “estímulo” injectadas por seu
governo “salvaram e criaram” milhões de empregos. Tal ideia baseou-se em dados
altamente inflados a respeito dos empregos que seriam cortados caso não tivessem
agido. Na verdade, o número de pessoas directamente empregadas graças às medidas
de Obama é insignificante.
Em seguida, Obama anunciou a extensão do plano de benefícios aos desempregados
em 20 semanas para alguns estados do país. O presidente norte-americano informou
que a lei assinada por ele aumentará os benefícios existentes para mais de
700.000 pessoas. O salário-desemprego chegará a US$ 300, podendo ser estendido
para até 33 semanas.
A lei também inclui um aumento da taxa de crédito para aqueles que comprarem
casas. Tais programas buscam aliviar o processo mas, de forma alguma, apontam um
caminho para superação da crise.
Buscando diminuir os comentários de que seu governo está ampliando demais os
gastos federais, Obama declarou que as lei que estende os benefícios aos
desempregados era “neutra” do ponto de vista dos gastos do Estado. “A lei que
assinei não acarretará em nossos gastos. Trata-se de algo muito pequeno e, nesse
sentido, responsável do ponto de vista fiscal”, afirmou.
O foco no corte dos gastos federais, tema repetido por muitos representantes do
governo nas últimas duas semanas, surgiu após os cofres do governo serem abertos
ao sector financeiro. O aumento dos lucros e dos bónus aos maiores bancos serão
pagos via corte nos gastos sociais.
Obama indicou que seu governo busca medidas adicionais, focadas em cortes
fiscais para corporações, supostamente para gerar empregos. Com isso, o governo
rejeitaria novos pacotes de estímulo.
Alan Krueger, economista-chefe do Departamento do Tesouro, disse a jornalistas
que não existem planos seguros sendo planejados. “Não posso falar sobre o que
está sendo considerado, nem mesmo se o que está sendo considerado acontecerá”,
afirmou ele.
A esse respeito, Obama ainda defendeu “uma agenda agressiva para promover as
exportações e ajudar os negócios americanos no resto do mundo”. Tal declaração
refere-se a um componente chave da estratégia americana para diminuir seus
gastos fiscais: a desvalorização do dólar para aumentar as exportações e
diminuir importações.
A realidade por trás de tal proposta, no entanto, é o ataque aos salários, base
da competição em todo o mundo por mão-de-obra. Os salários nos EUA caíram neste
ano para um nível recorde e continuará caindo.
O próprio governo desferiu esse ataque com o processo de bancarrota da General
Motors e da Chrysler no começo deste ano, vinculado ao rebaixamento dos padrões
de vida da classe operária.
No começo desta semana, Obama declarou, num encontro do Conselho de Recuperação
Económica, que gostaria de “criar algo para que os investimentos fossem
alavancados”. A única forma de fazer isso, para ele, no entanto, se dá através
da permanente redução dos salários e pelo aumento da produtividades dos
trabalhadores americanos.
Para Obama e o sector da burguesia que representa, altos índices de desempregos
não são indesejáveis — pelo contrário, são absolutamente necessários.”