domingo, 15 de Junho de 2008 5:12 torredaguia

O FADO DOS SINAIS


Por mero acaso, meu e dele, ao cabo de meia-dúzia de anos sem contacto, tive ontem (14.6.2008) o privilégio, na porreiríssima companhia do doutor Domingos, de rever e estar com Valdemar Vigário no restaurante típico Douro durante um agradável serão de Fado semi-profissional conduzido pelo pertinaz e eficaz Nano Vieira.

O Valdemar desde menino que é no burgo portuense um notável intérprete de Fado e há já largos anos que se distingue como exímio executante de guitarra portuguesa. Actualmente, na cidade do Porto, é um dos mais antigos profissionais que vem resistinto até às pontas dos cabelos à crise-de-tudo que vai tomando conta de tudo por obra e graça daqueles que se exibem sobre os escombros da decadência social, notabílissimos amantes das corridas de popós na avenida da Boavista (!), de aviõezinhos a passar por baixo das pontes do Douro poluído e de ferralhentas árvores de Natal com ganas de perfurar o céu.

O Valdemar, no ensejo, interpretou dois trechos do seu vasto reportório. Emocionou-me, comoveu-me e fez-me lacrimejar entre aqueles embaraçantes sentimentos mistos de tristeza e alegria que nos enternece o espírito. Aos 64 anos, a sua voz em nada desprimorou, pelo contrário, constatei que a centelha da veterania acende-lhe muito mais a capacidade interpretativa. É deveras um regalo ouvir e presenciar o Valdemar. É Fado integral e, pronto, acabou mais uma vez ali, embora apetecesse escutar muito mais.

Em desabafo, apetece-me escrever ainda: se não tenho hábil competência para colocar outrem a servir-me, o que me resta fazer sem mais remédio?... Claro, servir eu a outrem!... Todavia e entretanto já cheguei à conclusão de que agora não presto para uma e outra situação. Infelizmente, como eu, confrange-me que no deprimente decurso, entre o nefasto ambiente social que se implantou, existam milhares de portuenses e milhões de portugueses.


FADO DE TODOS

Se o fado só fosse versos
por entre arpejos emersos
na minha voz a escorrer,
como é que eu sentiria
a dor de amor por magia
a transformar-se em prazer?...

Se o fado só fosse xaile
e veste de belo talhe
que se apresenta a preceito,
como é que eu de emoção
daria consolação
às tristezas de meu peito?...

Se o fado só fosse apenas
um desabafo de penas,
solidão e nostalgia,
como é que eu a cantá-lo
sinto minh' alma em regalo
inundar-se de alegria?...

Se o fado só fosse então
lamento, capricho em vão
e arauto da desdita,
como é que em Portugal
cantar o Fado afinal
é uma coisa tão bonita?...