No decurso de um recente e interessante serão dedicado a ensaios sobre Fado, um dos convivas, folgazão bem disposto e embrenhadíssimo em tradicionais tocatas e cantigas, apareceu, entre outros curiosos versejos, a interpretar o Fado Calão, cuja letra original e tal-qual é, por mais que há algum tempo eu tivesse buscado e rebuscado, não encontrei na Internet. Como considero estar perante a uma expressiva «maravilha» de engenho popular e de autor obviamente desconhecido, transcrevo os versos que o citado me forneceu na expectativa de que porventura acorra alguém a corrigir-lhes os desvios.

Assim, deduz-se e haverá mais de um século, estava possivelmente um «mãozinhas-leves» preso e a aguardar julgamento, quando sentiu necessidade de escrever uma carta à mulher. Para que a carta não fosse entendida por quem eventualmente à mesma tivesse acesso, decidiu escrevê-la num calão que só a companheira compreenderia. Aprecie-se:

FADO CALÃO

Palácio do «Conde Andeiro»,
dia 6 do mês corrente,
num velho «surdo» sentado,
espero e quero primeiro
que estejas «bacanamente»,
já que eu estou «encanado»...

Com a «fresca» no «bastelo»
escrevo-te esta «falha»
pra que te ponhas a «fangues»;
já deu de «cabra o camelo»
a quem eu «guindei a tralha»
e «manjou» que «eu era mangues»...

Se a «bófia» te apoquentar
e não puderes visitar-me
salta pela «clarante»
e se o «pira» te falhar
desde já passo a avisar-te:
tens no «piano» a «fugante»...

Traz-me a «mimosa noviça»
e prá bófia não «dichavar»
pela mão traz a «chavala»;
mete um «pintor embutido»
nos «calcantes» entre a sola
que é pra eu «pagar a sala»...

Firma-te bem nas «canetas»
e quando vieres pra cá
passa pelo «invejoso»;
vou terminar estas letras,
recebe pois querida «H»
um «chocho» do teu «manhoso».


A vida, enquanto efeito aquém, sob ou além do raciocínio, é tão-só permanente movimento
Pela Invicta Cidade, desde já, esclareça-se e vote em ELISAZUL


... Acertei em mim e à tangente, ao prognosticar, como em postura anterior se poderá ver, os quatro semi-finalistas do Euro 2008. E só acertei em mim com propositada, ácida e confrangedora disposição de espírito. Considero que tanto Scolari como Cristiano, por sucessivas atitudes públicas inadmissíveis, desde sempre se demonstraram indignos de integrar a selecção portuguesa. É o exemplo que faz ou desfaz o templo conciliador da humanidade seja na situação que for.

Ficaram pois, e com inequívoco mérito desportivo, limpinho - como soer é dizer-se - os rígidos alemães para se baterem com os miraculosos turcos, e os surpreendentes russos, timonados por um mercenário holandês, para defrontarem os jejuantes espanhóis. À primeira vista, só os adeptos de inquebrantável fé contrária acreditariam que as Holanda, Croácia e Itália não lograssem vencer as selecções que se lhes opunham.

Assim, a final que se disputará no próximo 29 de Junho apresenta agora apenas quatro probabilidades e eu aposto-e-gosto da menos plausível delas. Presumo que um decisivo confronto entre turcos e espanhóis daria uma empolgante e bela festa de futebol. Apesar das históricas maldades que nos fizeram, dos 60 anos de submisão e de Olivença, enfileiro-me entre aqueles que apoiam o triunfo europeu dos nossos hermanos.

Alemanha - Rússia
Alemanha - Espanha
Turquia - Rússia
Turquia - Espanha


Oh, não, não se sabe, por enquanto, qual a intimidativa ambiência que pairou entre os seleccionados portugueses e brasileiros. Se ainda há em Portugal bocas onde a mordaça (e a testeira sobretudo) impera sobre a liberdade de expressão, esta faz eco por fora do «nosso» Futebol, sendo sistematicamente introduzida dentro de um penico cheio de dinheiro. E oh, que belo, os nossos olhos fecham-se acamados na silenciosa delícia de um tal cheirinho. Como é possível haver alturas em que a «óbvia coisinha» cheira tão bem?... É, pois então não é?!... Inclusive, dá levitantes sensações imaginar que estamos a tomar banho num tanque dela.

Ganhamos aos turcos e aos checos. De regresso, vá, o «mata-mata» merece que o país pare e lhe agradeça mais este glorioso Alcácer-Quibir... Ele é o responsável por tudo. Apre, o que é que em 2008 quererá dizer «responsabilidade»?!... Dão-me licença de traduzir em poliglota futebolês: socolari !...

E agora, Madaíl vai «mandar daí» o quê?!... Santinho e de uma vez por todas: em Portugal, quem assumir e protagonizar o alcance de um dado objectivo em nome do país e não lograr a sua consecução, apre, tem de ser imediatamente substituído e deixar de andar armado em moscardo ao redor da «mesma coisa». Basta!...



Lata a toda a largura da «responsabilidade» e parece que continuará a alargar-se...



Presunção, arrogância, sofismo político ao extremo, corridas de automóveis por uma avenida que cegou de decepção, acrobacias de aviõezinhos sobre um rio que se aquieta cada vez mais desnaturado e poluído, ataques insensatos às mais lídimas instituíçoes populares da cidade, cidade pejada de mendigos e miserabilismo por todos os cantos, cidade que se foi esmirrando no seu deslumbrante entretecido comercial e social, tudo-tudo coroado por uma «árvore de natal» que, qual foguetão espacial, desafiou os basbaques da vida a olharem para o céu... Uma fortuna lançada na lixeira do supérfluo, uma lástima que se afunda no abismo da inexplicação, algo que profundamente confrange e revolta ao mesmo tempo.

Vá, convençam-no a regionalizar, metam-lhe nos olhos a evidência e coloquem-no de novo no trono da inépcia «social-democrata» com um popó e um aviãozinho nas mãos para ele brincar a rodar em torno de si.... brrr... brrr... brrr...

Ah... Portuenses, desde já, acendamos com convicção a esperança. Inspirêmo-nos e empolguêmo-nos na vontade de mudança séria = ELISAZUL


Para que a fase de grupos do Euro 2008 se conclua, falta apenas saber, das Suécia e Rússia, quem vai jogar com a Holanda, uma irrompante equipa de futebol a todo o banco que se mostra em auspicioso regresso aos empolgantes tempos da «laranja mecânica», a célebre selecção onde em 1974 se destacou o extraordinário Johannes Cruyff. Assim, para os quartos-de-final, apresentam-se:

Portugal - Alemanha
Croácia - Turquia
Holanda - Suécia / Rússia
Espanha - Itália


Colocando de lado os míopes pendores do «ganha quem não pode ganhar», não é difícil prever quais serão as quatro selecções protagonistas das semi-finais: Alemanha, Croácia, Holanda e Itália. Indepentemente de outros factores, no que à selecção portuguesa se refere, uma equipa completamente intimidada e ávida pelas transferenciais negociatas, vai ficar claro que dar o peito à camisola não tem nada a ver com o dar a cabeça aos cheques.

As atitudes de Scolari, logo que após o apuramento para a fase seguinte anunciou e confirmou o contrato milionário que estabeleceu com o Chelsea, não são dignas de um responsável pela selecção de qualquer país. Está-se em face de um doidivanas qualquer pronto a perder a cabeça ao mínimo atrito. Oh que homenzinho tão bonzinho e benquisto pelos atletas, mas que parece tão mau e está sempre a demonstrá-lo sem a mínima dúvida. Mas qual «mata-mata» qual carapuça!...

Bom, aguarde-se o desfecho e entretanto magique-se sobre o que é necessário engendrar para impedir que a Holanda seja a nova campeã europeia. Ena pá, quantos milhões ficarão a valer aquelas laranjas?!... Não me digam que Josep Guardiola já está de ôlho feito ao galho...

De resto, de pés na terra e olhos no céu, esforcêmo-nos por ser um bocadinho sinceros: o Cristiano não é o melhor jogador do mundo, mas que é uma das melhores jogadas do momento, lá isso é !...

Auto-comentário = A assunção do defeito é o caminho mais curto para a terra da perfeição. Só que, ao passar-se pelas mais do que definidas bestas, e a evidência desta é claríssima, não é qualquer DESFRAGMENTADOR que logra êxito. Vá Leitores que sabem ler, divirtam-se com a ironia e ouçam boa música.

- Senhor Scolari, poderá o anúncio da sua contratação pelo Chelsea desmotivar a selecção portuguesa?...
- Não (entre o alinhavado sorriso de finório só faltava um gorro de fariseu).

Ora então, após a «façanha única» de ter vencido turcos e checos, o tal que só errou por que em lugar de apenas oito deveria ter substituído a equipa toda, inclusive a si próprio, os suíços, numa brincadeira sem importância alguma, estragaram-lhe o monossílabo todo e quiçá lhe tenham exorcizado os caravaginos poderes...

Para já estão aí os alemães e logo adiante, entre triplicada densidade, deparar-se-lhe-à o cerco inglês sob o fantasma de Mourinho.

Senhor Scolari, apre, não só a selecção portuguesa foi afectada com o oportunista anúncio do tapete-voador para as abramovichantes mil-e-uma-noites, como também o Chelsea vai pagar forte e feio o emburricado «não». No regresso, dada a sua embandeirada adoração pelo maná português, o Benfica e o Eusébio acolhê-lo-ão de braços abertos...

Oh... Como gostava de enganar-me. Pelo menos o impecabílissimo Deco não merecia ser banhado em tamanha grandeza.


Afinal, e é de pasmar como só agora se sabe, querem apanhar-se um ao outro. Entretanto, quem é que vai ficando apanhado, quem é?!... Ai, como eu regosijaria se os dois fossem apanhados ao mesmo tempo.

Eu explico-me: por exemplo, em Angola e no mês de Fevereiro de 2002, um apanhou o outro, mas ficou ele entre a montanha dos apanhados...

E estas duas históricas jóias de «pessoa» quantos apanharam?...


Independentemente dos curiosos e magníficos apeadeiros onde o comboio da poesia parou, eis as sucessivas e principais estações que se me deparam ao longo da linha dos versos: João de Deus, Junqueiro, Camões, Bocage, Florbela, Pessoa, Régio e Aleixo.

SER POETA

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
do que os homens, morder como quem beija,
é ser mendigo e dar como quem seja
rei do reino de aquém e de além-dor...

É ter de mil desejos o esplendor
e não saber sequer que se deseja,
é ter cá dentro um astro que flameja,
é ter garras e asas de condor...

É ter fome, é ter sede de infinito,
pôr elmo às manhãs de oiro e de cetim,
é condensar o mundo num só grito...

e é amar-te assim perdidamente,
é seres alma e sangue, e vida em mim,
e dizê-lo cantando a toda a gente!

Florbela Espanca

A Florbela, apenas com 36 anos, fartou-se de viver em 1930, por conseguinte, muito afastada do que eu vi e vivi a partir de 1939, tinha uma outra aquilatação sobre o exercício e a fruíção da poesia. Decidiu suicidar-se a meia-idade, não se dando pois à oportunidade de atirar com a sua trágica amorosidade pela janela fora. Ter-se-à finado endeusada de mais...

SER POETA É SER O QUÊ?!...

Poeta é ser tão-só singela loisa
onde o passado se inscreve no presente
e o futuro que é sempre a mesma coisa
até parece que será coisa diferente.

CONCLUSÃO ECOLÓGICA

Os corredores de carro ou de mota
o que são, ó inerte cego-surdo-e-mudo?...
Como moscas andando sempre à volta
além do que se obram ainda obram tudo!...

António Torre da Guia

PS = aflitivo = O que será mais fácil realmente?... Viajar entre a Terra e Marte ou obter um efeito que aproxime os dois planetas? Pois, vá, experimente um imbecil ensaiozinho: tome duas pedrinhas, afáste-as uma da outra e depois apróxime-as devagarinho. Seguidamente, sem pensar em petróleo ou urânio, feche os olhos e comece a sonhar...

Ah, antes, para que não seja perturbado por alguma extrema necessidade, não esqueça de prevenir-se com o alívio sanitário. Se fizer como eu já fiz e adormecer, acorda todo obrado.


Por mero acaso, meu e dele, ao cabo de meia-dúzia de anos sem contacto, tive ontem (14.6.2008) o privilégio, na porreiríssima companhia do doutor Domingos, de rever e estar com Valdemar Vigário no restaurante típico Douro durante um agradável serão de Fado semi-profissional conduzido pelo pertinaz e eficaz Nano Vieira.

O Valdemar desde menino que é no burgo portuense um notável intérprete de Fado e há já largos anos que se distingue como exímio executante de guitarra portuguesa. Actualmente, na cidade do Porto, é um dos mais antigos profissionais que vem resistinto até às pontas dos cabelos à crise-de-tudo que vai tomando conta de tudo por obra e graça daqueles que se exibem sobre os escombros da decadência social, notabílissimos amantes das corridas de popós na avenida da Boavista (!), de aviõezinhos a passar por baixo das pontes do Douro poluído e de ferralhentas árvores de Natal com ganas de perfurar o céu.

O Valdemar, no ensejo, interpretou dois trechos do seu vasto reportório. Emocionou-me, comoveu-me e fez-me lacrimejar entre aqueles embaraçantes sentimentos mistos de tristeza e alegria que nos enternece o espírito. Aos 64 anos, a sua voz em nada desprimorou, pelo contrário, constatei que a centelha da veterania acende-lhe muito mais a capacidade interpretativa. É deveras um regalo ouvir e presenciar o Valdemar. É Fado integral e, pronto, acabou mais uma vez ali, embora apetecesse escutar muito mais.

Em desabafo, apetece-me escrever ainda: se não tenho hábil competência para colocar outrem a servir-me, o que me resta fazer sem mais remédio?... Claro, servir eu a outrem!... Todavia e entretanto já cheguei à conclusão de que agora não presto para uma e outra situação. Infelizmente, como eu, confrange-me que no deprimente decurso, entre o nefasto ambiente social que se implantou, existam milhares de portuenses e milhões de portugueses.


FADO DE TODOS

Se o fado só fosse versos
por entre arpejos emersos
na minha voz a escorrer,
como é que eu sentiria
a dor de amor por magia
a transformar-se em prazer?...

Se o fado só fosse xaile
e veste de belo talhe
que se apresenta a preceito,
como é que eu de emoção
daria consolação
às tristezas de meu peito?...

Se o fado só fosse apenas
um desabafo de penas,
solidão e nostalgia,
como é que eu a cantá-lo
sinto minh' alma em regalo
inundar-se de alegria?...

Se o fado só fosse então
lamento, capricho em vão
e arauto da desdita,
como é que em Portugal
cantar o Fado afinal
é uma coisa tão bonita?...


Desenho à vista desarmada: o preclaro a revelar-se ditadura com soluços democrátidos.

O Tratado de Lisboa submetia-se a uma essencial cláusula, cuja aprovação teria de ser unanimemente estabelecida pelos 27 países que na decorrência se integram na Comunida Europeia. A Irlanda, que se rege por uma constituíção política que atribui ao seu povo, em simples sim ou não, uma tão delicada decisão, através de inequívoco exercício democrático e ainda que o seu actual primeiro-ministro fosse adepto do sim, pronunciou-se: NÃO.

Como surpreendentemente se constata, em «uníssono ensaiado» - escreve e considera o JN - os principais líderes do convenientíssimo ensaio, em lugar de acatarem a democrática e democratizante decisão irlandesa, preparam-se para ultrapassá-la, ignorando-a, com o apoio do primeiro-ministro irlandês, que deveria, sem qualquer espécie de delongas, demitir-se imediatamente, à exemplaríssima guisa, por exemplo, de António Guterres numa outra paradigmática faceta.

Ah... Ilustríssimos senhores, subreptícios e sofismáticos democratas-ditadores-endeusados, afinal quem é que coloca estupidamente o mundo em vulnerável ambiência política e social?... É o POVO ou são VOCÊS?!..

.

Ouvi e acompanhei a leitura na televisão, no que concerne a mais uma eventual ponta de escandalosa meada, dos comunicados das partes em litígio:- entre uma enorme e confusa salada de números e mais números, considerando centenas de milhões-vírgula-milhares de euros para cima e para baixo, António Costa refuta e aponta a via judicial sobre uma anterior notícia que a TVI emitiu, atribuindo-lhe responsabilidade dolosa. De imediato e no mesmo estilo, a TVI fez passar a confirmação de tudo quanto tinha em tempo noticiado, sublinhando o que considerou entretanto evidentes lapsos de contorno e forma do presidente da CML.

Cidadãozinho assaz comum que sou, sucessiva e progressivamente penalizado na minha modestíssima vidinha, sempre cada vez mais à rasca da alma e do corpo, defronte à enxurrada de tais e quejandos casos que passam, perpassam e nunca mais cessam de passar na comunicação social, que hei-de eu considerar em face de uma opinião pública que se reconhece inundada de corrupção entre contínuos manobrismos de alta locupletação até às pontas dos cabelos? Mais: entre tanta-e-tanta deprimente embrulhada que vem à tona plena de lodo, como é possível que tudo-tudo se dilua e transforme em sórdida limpidez?!...

Bom... Sequer pergunto, dada a evolução dos meios e dos métodos, se estarei perante uma refinadíssima forma de prestidigitosa transacção. Vou teclando, vou também passando o tempo em indiferente e embascante diluíção, embora revoltado por não encontrar um diacho de habilidade que permitisse locupletar-me impunemente só um bocadinho... Ah... Como o meu querido país encarece e urge de uma boa dúzia de Marinhos Pinto e inequívoca acção a preceito.


.

Em sexta-feira-13 = Que azar político !... Que sorte social !...

O povo irlandês, segundo os ditâmes da sua constituíção política (o povo português tem sido um contínuo sub-decisor), legítima e inequivocamente representado na opção tomada pela maioria dos eleitores votantes, acaba de dizer «não» ao designado Tratado de Lisboa (13.12.2007), um impositivo desígnio de poderosos e privilegiados partidocratas, todo ele cozinhado e manobrado à margem do efectivo parecer directo dos cerca de 500 milhões de cidadãos que fazem parte da Comunidade Europeia. Em consequência, como o desiderato exige por unanimidade o «sim» dos países já integrados para ser aprovado, os indivíduos que deveras se sentem sem óbice democratas antes-de e depois-de, sentir-se-ão naturalmente regosijados e gratos aos irlandeses que a 13 de Junho de 2008 (dia de Santo António em Portugal) assim decidiram, quanto a mim contribuindo para desanuviar os propósitos e os equívocos contornantes.

Entre nós, José Sócrates, que em princípio se mostrou inclinado a submeter a referendo a aprovação do Tratado, tal como de resto tem procedido desde que foi eleito primeiro-ministro, revirou e, pela certa, entregou o decisivo parecer à AR. Também, Luís Filipe Menezes, embora exigindo voto directo para liderar o PSD, imediatamente adiante, posto no poleiro de baixo, fechou olhos e ouvidos à opinião dos portugueses. Só o presidente da República foi atempadamente coerente neste delicado domínio, declarando e reafirmando a sua posição antes de eleito.

Em imediata reacção ao «não» irlandês, os partidocratas lesados na sublime teta-e -treta começaram já a bater com os calcanhares nos fundilhos... Que preclaríssimas são as democráticas conveniências dos tratantes: passar por cima da decisão irlandesa com um pau de dois bicos. Se por um lado afirmam que a respeitam, logo por outro declaram que é preciso ultrapassá-la e impor o tratado... - Quem tem medo da democracia?... Oh... Que óbvio de tão óbvio: os ditadores eleitos!...

Democracia Portuguesa

Vá, meus senhores, pra valer,
há que dar forte empurrão
nas palavras que hão-de ser
tal e qual os gestos são...


Santo António de Lisboa, olissiponense nado, foi-se para o céu em Pádua. Por isso o designam santo dum e doutro lado.

Fingia pregar aos peixes, após lançar-lhes umas migalhitas sem que ninguém visse, na expectante esperança de atrair seus concidadãos para o discurso que produzia a fim de que porventura nele se reflectissem. Nem todos os seus esforços se goraram, já que da sua estóica militância humanizante se extraem algumas espirituais maravilhas que nos colocam a alma a brincar com as nuvens.

A noite antecedente em Lisboa costuma ser de empolgante e concorrida festa. Só quem lá vai e cheira o manjerico real é que sabe como o folguedo desperta harmoniosamente os sentidos e impele os indivíduos para a festividade sádia e fraternal. Até os bêbados de cair se portam bem, pois não têm pela beira os habituais hipócritas a esmagar-lhes o esvoaço dos sentidos.

Miudinho de cinco anitos, minha mãe tinha o hábito de levar-me frequentemente à Igreja dos Congregados para que eu visse o Santo António em seu altar. Talvez por isso e desde sempre, apesar de não crer em miopias racionais, Santo António toca-me no nome e no ego. Sinto-o como quero sentir, livre, pleno de raciocínio sem dogmas, excelso e divino a meu modo. Melhor ainda: com ele sinto-me eu. Sei que não é santo de alinhar com os que sistematicamente fazem o mal e na mesma medida vão continuando a pedir infinitamente perdão.

Gosto e admiro o paradoxo da sua imagem tal e qual a evidência a apresenta sobre os altares nas igrejas ou entre garrafas nas prateleiras das tascas.

Que belo é o menino,
Santo António, ao teu colo,
sentado semi-nuzinho
em permanente consolo!...


Permaneça Santo António!...


A expressão «Estado vulnerável» (há 34 anos que os cegos também vêem) que José Sócrates utilizou na AR para revelar seu sentimento em relação à greve paralisante que os camionistas posicionaram, a qual dos actuais «Estados» corresponderá? Ao «Estado» dele e de seus dilectos seguidores a mais de 5.000 euros mensais ou ao nosso? O dele, pela aragem em decurso, está sim, como mais e mais se constata clamorosamente, deveras imprestável-e-insustentável, e o nosso, daí, por todos os cantos do país, vai-se tornando paulatinamente lastimável-e-inviável.

Bom, o primeiro-ministro acrescentou que independentemente de concertações e negociações laborais, o cacete está de atalaia e preparadíssimo para exercer a óbvia dinâmica correctiva sobre os costados do povo, e quem vai de facto suportar o eventual aquecimento em maior número serão aqueles, pois, que menos terão a ver com as estratégias e tácticas grevistas, sendo através de tais peripécias que continuam a pagar forte e feio, pelas mais variadíssimas formas, os extremos suores da vida.

Como as coisas estão e vão indo, embora o Governo do PS disponha de maioria assembletante (o PSD também dispunha), assim que em breve a supérflua euforia futebolar se diluir, parece-me que a Presidência da República, mais dia ou menos dia, terá porventura de intervir na intervalação de tão deprimente decurso social. Oh... Praza que não e que os portugueses de voto na mão o ponham onde quiserem... - Então não se diz que temos o governo que escolhemos?!...


Enquanto a maioria do nobre povo da nação valente se extasiava com os magníficos rodopios da bola portuguesa, sem sequer se aperceber que os frigoríficos esvaziam agora muito depressa, as obras públicas paravam, os postos de combustível esgotavam os tanques e os bens essenciais começaram a desaparecer dos expositores comerciais. Neste momento, após o Governo aceitar as reivindicações dos trabalhadores em greve (uma das formas de considerar a intervenção governativa), diz-se que o retorno à normalidade ainda vai demorar vários dias.

Como em Espanha, com a polícia de choque a malhar forte e feio sobre os piquetes grevistas, o ministro Mário Lino disse que o arrumo da piqueteria portuguesa (o termo é meu), mesmo contando com uma vítima mortal, poderia ter sido pior. Na televisão, pelo que vi e ouvi por parte dos piqueteiros, que se declaram amargurados e traídos em seu ideal, fiquei com a sensação de que estes estavam mesmo a gostar do impositivo servicinho que «disponibilizavam» aos camaradas que queriam continuar a trabalhar.

Estou a lembrar-me da anedota do papagaio, cujo dono, por que o interessantíssimo palrador se tornou insuportável, decidiu metê-lo no galinheiro junto com as outras aves. Durante a noite ocorreu um inopinado temporal que destruiu por completo o habitat dos galináceos. Pela manhã, diante do desolador estendal que se lhe deparava, o dono viu o loirinho encolhido num canto, ferido e quase todo depenado.

- Ó meu melro, então pá, o que é que aconteceu?...
- Ó patrão (erguendo-se a custo, abriu as asas e salientou o peito), eu quando tiro o casaco sou assim!...

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