Cultura

Adele ao JN: "Todos nós sentimos o mesmo"

Adele ao JN: "Todos nós sentimos o mesmo"

Quando começou a trabalhar no seu terceiro álbum, Adele escreveu a sua idade num pedaço de papel, "que até é uma coisa que faço sempre". Rabiscar "25" no seu bloco de notas foi um gesto pequeno mas significativo. Revelou o início do mergulho no abismo de um imenso processo artístico.

Pelo menos já tinha um título. \"Decidi chamar-lhe "25" por causa da minha idade, outra vez, e porque muita coisa aconteceu entre o último disco e este". Isto parece quase um eufemismo. "Acumulei muito nestes quatros anos, não só por causa da minha carreira, mas também da minha vida. Então pensei, sim, mais uma vez, e só para acabar, só para mostrar a toda a gente o que me aconteceu quando deixei a adolescência e me tornei adulta".

A decisão de fazer "25", a terceira e última parte de um ciclo de canções que começou com "19" e ganhou um alcance sem precedentes com "21", foi deliberada. Foi para manter-se igual a si própria. Entre os 32 milhões de vendas de "21", os prémios e a adoração, uma pessoa podia perder-se. E Adele estava determinada em não permitir que isso acontecesse com ela.

A dimensão do sucesso de "21" é uma moeda de duas faces. Por um lado, validou tudo o que Adele trabalhou desde a primeira vez que cantou num microfone quando era uma adolescente da Brit School, no sul de Londres. "Como artista, era a única coisa que poderia pedir". Por outro lado, esse êxito colocou-a numa posição potencialmente redutora. "Todos os dias do resto da minha vida serei lembrada por esse disco - e isso é uma coisa bonita que aprecio".

A dada altura, Adele deixou de sentir que o disco era sua propriedade ("21 pertence às pessoas, já não pertence a mim"), uma sensação amplificada quando a sua canção central, "Someone like you"", entrou no cânone das maiores. "Quando escrevi "Someone like you", eu sabia que era a minha canção. Eu sabia que seria a canção que para as pessoas seria como "oh Adele, oh sim". Fiquei muito orgulhosa. E lido bem com isso".

No entanto, quando começou a imaginar o que faria depois, uma pergunta deve ter ecoado algures na sua mente: pode um relâmpago cair duas vezes no mesmo sítio?

Entretanto, o processo de composição de "25" começou. "O tema de tentar reconectar-me com o meu passado", explica ela, "foi o ponto central, era algo que começava a ressoar alto, claro e majestoso". E foi quando escreveu "When we were young", a peça central de "25", com o seu novo herói musical Tobias Jesso Jnr, que essa ideia se cristalizou. "Realmente, a letra de "When we were young" resume o disco inteiro. Nós não percebemos o quão sortudos somos enquanto crianças. Não temos as responsabilidades de uma vida de pleno direito".

"Eu vivo uma vida incrível", diz, "e vivo uma vida provavelmente muito mais fácil do que a maioria das pessoas, mas continuo a suspirar por quando era mais jovem. Não tem nada a ver com o facto de ser bem-sucedida. É apenas a vida real. Todos os meus amigos são pessoas muito normais que fazem coisas muito normais. Todos nós sentimos o mesmo. E todos temos estas crises - "Estarei a fazer isto certo? Isto é bom? Oh, Deus!". Ainda levou algum tempo para Adele conseguir trabalhar este sentimento partilhado. "Houve um momento em que pensei: será só comigo? Estarei a ter uma crise porque sou famosa? E não era. Todos nós tivemos crises antes, e ao mesmo tempo, sem dizermos uns aos outros".

Não houve abertura mais forte do que o single de estreia de "25", "Hello" , um novo hino recorde para a cantora. Adele escreveu a canção com o colaborador mais proeminente do álbum, Greg Kurstin . "Sabia que "Hello" seria a primeira canção com que queria voltar a qualquer custo, só pela primeira frase. "Não era como se dissesse sempre "Olá, como estás?", a frase era algo como "Olá miséria", e nós até pensávamos assim "Meu Deus, isto é deprimente!". Uma vez que encontrou o ponto de partida, a escrita solucionou-se. ""Hello" dá todo o tom do álbum. É um tom de conversa e eu queria falar com toda a gente".

A cantora pensou muito sobre voltar com uma balada antes de escrever "Hello", mas satisfê-la pensar na mensagem que estava a passar. "Gosto de escrever baladas e parece ser assim que melhor me ligo às pessoas". Qualquer coisa na escala da produção da música e o crescendo que começa no segundo verso pareceu bater certo. "Nunca escrevi uma balada como "Hello" antes - é um pouco Meatloaf", ri-se.

Há ecos de uma nova grandeza no seu som ao longo do álbum "25". Será que Adele está prestes a juntar-se aos reinos das grandes damas da música, das Barbaras e Bettes que eram as suas heroínas? "Não acho que seria digno sentar-me ao lado de artistas como Bette Midler ou Barbara Streisand. Sou a maior fã delas. Tipo, a maior. Elas fazem-me querer trabalhar no duro e fazem-me realmente pensar em tudo o que faço, porque acho surpreendente que elas tenham tido carreiras incríveis e que tenham evoluído através de cada etapa dos últimos 50 anos. É muito top! E isso é apenas algo que eu só poderia sonhar ter".

Chorou de emoção

Adele não tinha antecipado a resposta monumental do público ao primeiro single "25". "Fiquei espantadíssima com a reação ao "Hello"", diz. Ela temia que tivesse preparado o seu regresso tarde demais. Existe, em todos os artistas, a preocupação de que um regresso tardio possa significar trazerem algo de que o público não aprecie. O abraço caloroso de "Hello", número um em todo o Mundo e o single mais rapidamente vendido em 2015, dissiparam os temores. "Eu estava muito ansiosa", admite, referindo-se ao tempo que esperou para perceber qual seria a reação do público. "Depois de ter ouvido no rádio, senti um alívio tão grande que fui à casa de banho e desatei a chorar".

Adele é cristalina sobre o significado que a música tem para si. Ela fez, bem cedo, um pacto consigo mesma. "Não sigo nenhuma tendência", diz. "Decidi fazer música que eu sentisse. Prefiro manter-me naquilo que sou boa. Acho que fui sendo muito boa a editar-me, conforme a minha carreira foi prosseguindo. E estou mais exigente comigo". Quando chegou a altura de colocar num só disco o resultado do trabalho de quatro anos, como o fez com "25", ela teve de encontrar as 11 canções que melhor a representassem e que lhe permitissem ligar-se com a sua audiência. No final, ela foi de um coração destroçado para o amor, encontrando a perfeita síntese para essa mudança, na balada ao piano "Remedy". "É só uma canção sobre amor sem resposta. Quando me tornei mãe senti como "oh, tudo faz sentido agora. É tudo sobre isto"."

Numa forma maravilhosa

Pode até estar vestida como a galáctica estrela da pop Adele, - maquilhagem imaculada, casaco de veludo preto, cabelo perfeitamente penteado -, mas não poderá parecer mais humana. Como artista, Adele sempre teve a aparência de uma estrela apesar de a sentirmos como amiga. A cantora fala-nos ao interior, porque vende 32 milhões de cópias de um disco e continua a soar como se estivesse a cantar diretamente ao ouvido de cada um de nós.

Quando a regra é a honestidade, uma nova verdade é sempre crucial para criar. Como encontrá-la novamente? O desafio foi ainda mais complicado por causa do processo de passagem pelos 21 anos. "Odiei como me senti aos 21 anos ", diz Adele. "Não quero sentir-me assim novamente. Não quero estar tão só novamente. Não vale a pena".

Durante a campanha de "21", a vida de Adele parecia a letra da sua canção mais famosa. Encontrou um amigo e assentou (found a friend, settled down). Para aumentar esta arrebatada viragem também começou uma família e deu à luz um filho, em 2012. " Perdi-me massivamente quando me tornei mãe", diz. "Num bom sentido. Não mais do que qualquer outra mulher quando se torna mãe e do que um homem quando se torna pai, também. Percebi que algo muito maior do que eu me tinha acontecido, e vai ser maior do que eu sempre. Senti-me muito poderosa quando dei à luz um ser humano. Ser uma mulher que faz um homem foi bastante surpreendente ".

A novíssima responsabilidade de se tornar mãe significa, inevitavelmente, perder um pouco da imprudência da juventude, dizer adeus ao nosso antigo eu. " À medida que envelheces perdes intimidade com os teus amigos da infância, porque todos têm uma vida. Tens filhos, casas-te". Isso não é necessariamente uma coisa má. Mas isto traz uma brecha de melancolia imprevista. "Às vezes, gostava que fossemos apenas nós e não podemos, com tantas distrações a acontecer. Tornar-me mãe foi a única coisa que me fez perceber que tenho algo mais, que a coisa mais importante na minha vida agora existe. Antes era eu, e agora não". Agora são eles. "Não sinto falta de nada porque não venho de uma família nuclear ", diz, sobre a sua educação de filha única de uma mãe solteira adolescente. "Como não experienciei isso, é o que eu quero. Sabes, eu quero ser parte dessa unidade. Não perdi nada que não tivesse, estou apenas curiosa. Queremos sempre o que não temos".

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