Cultura

Para Agnès Varda Portugal é um país do cinema

Para Agnès Varda Portugal é um país do cinema

A realizadora francesa Agnès Varda, esta terça-feira, distinguida pela Universidade Lusófona do Porto com um doutoramento 'honoris causa', disse que Portugal é para si um país do cinema e recordou com saudade Manoel de Oliveira.

Numa cerimónia no salão nobre da universidade, Varda recordou a vez que visitou Portugal na década de 1950, enquanto fotógrafa, tendo atravessado a fronteira olhando para "uma paisagem desértica" que a fez sentir-se numa superfície lunar.

"Esperava chegar a um país extraordinário e era Portugal", afirmou a cineasta, que salientou não ter estudos nem ter passado nenhum exame para além do 'baccalauréat' em França, o que a fez revelar surpresa com a distinção da Lusófona do Porto, instituição onde esteve recentemente para uma 'masterclass'.

"Portugal é um país do cinema para mim", disse a realizadora de "Os respigadores e a respigadora", lembrando os convites de José Marques Vieira para participar no festival de cinema da Figueira da Foz ou as interações com Paulo Branco, "o português mais conhecido em Paris porque é um produtor um pouco louco".

Quanto a Manoel de Oliveira, Agnès Varda recordou as filmagens que fez do realizador português nos jardins de Serralves, no Porto, de "um homem delicioso e um 'clown' formidável" que "faz falta, isso é certo".

Adicionalmente, Varda destacou também as obras de João Mário Grilo, Pedro Costa e João César Monteiro, terminando a sua intervenção com as palavras: "Sempre o mar, sempre a arte, sempre o cinema".

No elogio à agora doutorada 'honoris causa', o professor e crítico António Preto referiu que Varda, "tendo desistido de ser conservadora do Louvre, é, porém, uma colecionadora, como é próprio de alguém que viveu a guerra, que conhece o exílio e, tudo tendo deixado para trás, cedo compreendeu a frágil precariedade do real".

"A catalogação do real nunca foi, para Varda, cedência a uma melancolia nostálgica: signo de uma curiosidade insaciável, a necessidade de inventariar, reconstituir e imaginar uma realidade responde, antes, a uma privação ou falta de quem sabe ser preciso inventar uma vida, um passado, uma 'persona', um espaço habitável, um amor e uma viuvez a que chamou Jacques Demy", disse Preto.

A cineasta vai ter também um ciclo dedicado à sua obra no Rivoli -- Teatro Municipal, que começa hoje e decorre até sexta-feira.

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