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Dinheiro de pequenos acionistas do BES desviado para grandes clientes

Dinheiro de pequenos acionistas do BES desviado para grandes clientes

O dinheiro colocado numa conta do Espírito Santo International, destinada a reembolsar papel comercial vendido a pequenos clientes, foi utilizado para pagar empréstimos a grandes clientes, conclui a auditoria forense pedida pelo Banco de Portugal à Deloitte.

A conta aberta no Banco Espírito Santo (BES), chamada de "conta escrow" e destinada a reembolsar quem comprou papel comercial aos balcões do ex-BES, foi utilizada para pagar a grandes clientes do "private banking", sendo assim classificada como "potencial desobediência ilegítima" por parte do Banco de Portugal, segundo o primeiro sumário executivo da auditoria forense realizada pela Deloitte, a que a Lusa teve hoje acesso.

O documento, o primeiro dos cinco realizados pela auditora, refere que houve "saídas de fundos" da conta "escrow" no montante de cerca de 740 milhões de euros "para reembolsar papel comercial da Espírito Santo International (ESI) que era detido por clientes do BES não classificados internamente no segmento 'retalho'", dos quais 500,5 milhões foram destinados a "clientes 'private'" e 239 milhões referentes a clientes de outros segmentos.

Recorde-se que a criação da conta para fazer face ao reembolso do papel comercial da ESI colocado em clientes de retalho do BES foi determinada pelo Banco de Portugal a 3 de dezembro de 2013.

A intenção era que fosse aberta uma conta à ordem que fosse utilizada por recursos alheios ao Espírito Santo Financial Group (ESFG) com valores equivalentes à dívida emitida pela ESI e detida por clientes do BES na sequência da colocação na respetiva rede de retalho, "devendo essa conta ser exclusivamente destinada ao reembolso dessa dívida", refere a auditoria forense.

Outra potencial desobediência ilegítima identificada na auditoria foi o pagamento de 80 milhões de euros ao Millennium BCP e 40 milhões ao Montepio Geral, no total de 120 milhões de euros, para liquidar empréstimos à ESI, quando este dinheiro deveria ter sido utilizado para o reembolso de papel comercial.

A auditoria forense adianta, sobre este montante de 120 milhões, que não existe "evidência de que tenham sido destinados a reembolso de papel comercial da ESI colocado em clientes de retalho do BES".

O documento revela ainda que houve potencial desobediência junto do Banco de Portugal quando foi reembolsado papel comercial da ESI a clientes do BES Açores, cerca de 52 milhões de euros, e a clientes do Banco Best, no valor de 23 milhões de euros.

Outra potencial desobediência detetada pela auditoria é a saída de fundos da referida conta de cerca de 74 milhões de euros no dia 19 de fevereiro do ano passado "para reembolso antecipado de obrigações da ES Irmãos com maturidade em 3 de março de 2014, detidas por um cliente não classificado internamente no segmento 'retalho' e custodiadas na SFE Madeira".

A administração do BES liderada por Ricardo Salgado "desobedeceu ao Banco de Portugal 21 vezes entre dezembro de 2013 e julho de 2014" e "praticou atos dolosos de gestão ruinosa", conclui a auditoria pedida à Delloite.

A informação, avançada na noite de quarta-feira pela edição 'online' do Jornal de Negócios (JdN), aponta também a conclusão de que o BES concedeu "financiamentos em violação das regras".

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