JN
Diretor
Manuel Tavares
  Francisco Simões: esculturas, desenhos, cerâmicas
foto joão frasão
Publicada



A Galeria JN, no Porto, expõe, de 24 de Fevereiro a 20 de Março de 2010, "Francisco Simões: esculturas, desenhos, cerâmicas".

A entrada é livre.

Edifício JN, R. Gonçalo Cristóvão, 195 4049-011 Porto. Horário: 2ª a 6ª feira, das 12,30h às 19,30h / Sábados e feriados das 15h00 às 20h00 / Domingo, encerrada.


A forma escondida num veio sussurra promessas secretas de harmonia numa pedra de longe. Preciosa. A cor. Cintila convidando aos caminhos da luz da perfeição sugerida de uma forma. Nova. Desta vez perfeita. Um ferro espetado, fundido e refundido, endurecido por tormentos de fogo e de frio, negro de luz. Fura a pedra na sorte do primeiro golpe. Na dança da escolha. O ferro afaga primeiro depois intumescido dos ideais de criação entra na pedra de longe. Entra grosso de magia e desejo de forma. Entra forçado pela primeira pancada de um maço com o cabo brilhante das vinte mil paixões da busca das vinte mil essências novas. Sempre diferentes. Sempre mais perto. O primeiro golpe. Que vibra nos tendões, que dói na mão, que esmaga a pele, que risca a pedra que é preciosa. Outro e outro e outro. Que desamarra da pedra a forma, que parte para a expressão, que ganha a luz, que mostra a paixão. Uma cara, um olhar, uma anca, um ombro, um seio, um grito que o ferro solta. A luz. De um sorriso ou de um queixume. De uma alegria. O olhar distante de uma interrogação de resposta impossível. Um convite de uma volúpia sem limites de prazer, de um aceno, de uma entrega. Outro e outro e outro golpe para chegar à forma escolhida, escondida, entre milhões de formas. ? Porque não falas? Pergunta o ferro que o maço incita que o musculo força que o tendão puxa à força de dor. Porque não dizes de onde vens? Pergunta o maço que bate à pedra de longe para a acordar, que é preciosa, que cintila fundida e refundida, ela também, em tormentos de fogos eternos, que se junta ao ferro duro de vinte mil paixões e ao cabo do maço brilhante de vinte mil buscas, desta vez, vinte mil vezes mais perto da verdade e continua a suplicar-lhe pela forma. Que surge primeiro vaga e distante numa promessa enevoada ainda dos pecados da imperfeição. Que tenta nascer, mas que ainda é apenas um murmúrio na recordação dos deuses, eles próprios esquecidos da imagem da perfeição. As mãos endurecidas por três mil lutas de mil batalhas cada uma, afagam agora a forma na descoberta encantada de que tem vida própria. E soltam-na com as artes da magia passada em palavras sussurradas pelos magos que os profanos nunca ouvem. Um sal, um pano áspero, uma areia sagrada, desapertam agora na forma os brilhos da vida, acabando de vez com os soturnos recantos do negro absoluto com que punem com a eternidade obscura a falta de expressão dos heréticos. E a forma fica. Aconchegada na sua honestidade de uma evocação pura de beleza. Ou desafiadora no seu convite para mil tentações. Ou viva, retendo a memória que não passa da alma do amigo e que nos acompanha para sempre. Ou num trejeito muito subtil quando se recorda crenças passadas que fizeram a nossa fé no presente que reconstruímos em combates mortais e que nos deixaram mais duros e mais sábios. Está tudo lá. No olhar, nos gestos que se adivinham como se fossem executados em ondas de mil mares, mas que se congelam em mil avisos. Não vás por aí. Ou, vem sem medo que eu acompanho-te e dou-te sempre a mão nas travessias entre a brutalidade sem formas e os hinos da vida que só eu sei arrancar aos mundos inertes que eu transformo em existência. Está tudo lá. No volume que ocupa um espaço, que define emoções, que assenta nos solos com a força da pedra. Um volume novo que não existia. E que agora nos questiona de volta. Quem és. Porque me acordas do meu sono de milénios e me pedes que olhe, que agite, que dance, que ame. Responde-me ao fim de tanto tempo à espera de te encontrar ? pergunta a forma libertada ? quem és tu que agora me tens?

Para o Francisco Simões. A minha homenagem a uma obra viva. Mário Crespo XII-09

Mário Crespo, jornalista


Natural de Porto Brandão, Almada, concluiu, em 1965, o Curso de Artes Decorativas António Arroio e, em 1974, o Curso de Escultura da Academia de Música e Belas Artes da Madeira. Foi bolseiro da O. C. D. E. (em Roma, Turim, Novara, Verona e Milão), do Ministério da Educação e trabalhou no Museu do Louvre, em Paris. Dedica-se numa primeira fase à docência, aceitando, posteriormente, solicitações para serviços de extensão à comunidade. Foi eleito para a autarquia de Almada (1976- 1980) e colaborou com o Ministério da Educação (1987-2006) onde, para além de ter sido assessor do Ministro da Educação (1998), coordenou vários projectos educativos.

Reformado da função pública (2006), tem, actualmente, a sua residência e atelier em Sintra, dedicando-se exclusivamente à criação plástica ? desenho, cerâmica e, fundamentalmente, escultura.

Mulher e literatura são linhas matriciais da orientação de toda a sua produção, ainda que, como bom profissional, seja autor de outras obras que não obedecem a estas matrizes.

No seu curriculum constam 34 exposições individuais e 55 colectivas realizadas em Portugal (Continental e Regiões Autónomas da Madeira e Açores) e no estrangeiro. É ainda autor de 40 monumentos públicos. De entre eles destaquem-se as fabulosas estátuas do Parque dos Poetas em Oeiras.

Releve-se a sua colaboração espontânea e desinteressada com escritores, sendo co-autor de livros com David Mourão-Ferreira, Urbano Tavares Rodrigues, Afonso Praça, entre outros.

Muito lhe deve, também, o mundo académico e editorial a que cede, gratuitamente, desenhos para capas de livros e ilustrações. Estas colaborações ascendem a 45. Da sua obra gravada constam 34 peças. Está representado - desenho, cerâmica, escultura - em 19 Museus e / ou Colecções Públicas.



















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