Galeria JN  "eros"
foto Leonel de Castro/JN
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"eros" é o título da exposição de desenhos do escultor José Rodrigues patente na Galeria do Jornal de Notícias, no Porto.

José Rodrigues nasceu em Luanda em 1936. Formou-se em Escultura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, em 1963. Fundou e preside à Cooperativa Árvore (Porto). Foi condecorado, em 1994, com o Grau Oficial da Ordem do Infante D. Henrique.

Já executou mais de 100 medalhas para diversas entidades e encenou várias peças de teatro no país e no estrangeiro. Colabora com poetas e escritores na ilustração de livros. Tem realizado vários monumentos e esculturas em Portugal e no Estrangeiro.

A Fundação José Rodrigues adquiriu recentemente as ruínas da Fábrica Social e transformou o Edifício num equipamento cultural de relevo que no dia em que abrir as suas portas permitirá aos Portuenses usufruir da melhor amostra de Arte do Séc. XX.

Nesta exposição estão expostos 35 desenhos lápis sobre papel.

A entrada é livre. Aberta ao público até 8 de Novembro.

Local: Edifício J N, R. Gonçalo Cristóvão, 195 ? 4049-011 Porto. Horário: 2ª a 6ª feira, das 12,30h às 19,30h / Sábados, Domingos e Feriados das 15h às 20,00h.


Com esta exposição, José Rodrigues evidencia a sua obsessão pelo branco? Esta traduz-se num universo de continentes, ao utilizar o carvão e o corpo da mulher.

Neste novo continente, todo cheio de branco, José Rodrigues, com o seu traço, deixa pequenos sinais semelhantes a balbúcios.

A sussurrar como uma brisa leve ao vento, os cinzas percorrem o branco, e o desenho completa-se numa redoma de luz.

O tema desenho permite, a José Rodrigues, explorar o branco que o persegue. Usa o lápis e através do corpo da mulher, onde as palpitações ainda se ouvem, cria sensualidade, contando uma nova história.

ÁGATA RODRIGUES, Comissária da Exposição


Esta mostra de trabalhos do mestre José Rodrigues é um tributo ao génio do artista, mas sobretudo uma homenagem à humildade e generosidade do homem que, revelando-se ora como "eremita pensador" ora como "anjo tutelar", sabe, como ninguém, partilhar e dar-se a conhecer ao outro. É porventura a singularidade desta "metamorfose" que faz dele o ímpar fazedor de "coisas" que inebriam e emocionam, por tão bem personificarem certo tipo de contrastes e ambivalências. O belo e o horrível, o preto e o branco, a alegria e a tristeza, o bem e o mal, o amor e o ódio, o velho e o novo, o anjo e o demónio, o homem e a mulher, o princípio e o fim? são alguns dos elementos sempre presentes na sua obra que lhe conferem identidade e uma inconfundível imagem de marca.

Qual "alquimista" de barbas brancas e coração imenso aberto ao Mundo, assim o vejo eu, mulher, é afinal alguém que conflitua interiormente e tem dúvidas e se questiona e procura, como todos nós, o melhor caminho para alcançar a sua verdade?

É este homem do Norte, ícone da cidade do Porto, que o país inteiro reconhece e que já conquistou um lugar de destaque na história da arte contemporânea portuguesa que temos a honra de ter hoje na nossa galeria.

Obrigado, amigo Zé, por ter aceite estar connosco.

ADRIANA AGUIAR BRANCO, Directora Geral da Global Notícias


Discurso à flor da pele sobre desenhos de José Rodrigues

É quando a sede de seres nu apaga todas as noites. É quando o homem surge da mulher e a mulher surge do homem. É quando sou eu, és tu, somos duplos nos nossos sonhos. É quando atravessas o trigo com a luz e com as carícias da carne da terra, que eu busco ao lusco-fusco. É quando os olhos encobrem o sol, uma água lavada, um fogo queimado, uma calma derramada ao nascer e no pôr da luz. É quando tu serves rostos e corpos, mostos e gostos, entre os olhos e os seios, o ventre, as coxas e a fenda e nos ofereces um corpo, nem injusto nem demente, que num relâmpago provoca a trovoada e rasga os rins. É quando ela, adormecida pela ternura inclinada do desejo, vem para mim, um homem sem sono, e com a sua doçura me afaga e apaga. É quando das tuas mãos nasce e se solta e voa, como um pássaro, um corpo e ele surge do teu desejo, um espelho fundo do teu sonho de ti e que os teus dedos compõem e modulam. É quando sou um homem vazio, um surdo, um cego, um mudo sobre um tufo de silêncio negro, obscuro objecto de um meu outro desejo oculto.

É quando sorrir aos anjos é real.

José Rodrigues, este prodigioso criador de imagens reais e visões míticas entre chão e nuvem, esse buscador peregrino e místico do homem à imagem dos deuses e dos anjos, doublé de fauno ardente e andante entre bosquedos, segredos e enredos, conjuga a força admirável da sua natureza com a lucidez da sua sabedoria: ele sabe, melhor do que ninguém, que "quanto mais nu o amor menos ele tem frio". Ele também leu o Livro de Job: "Nasci nu do seio de minha mãe e nu regressarei ao seio da terra. O Eterno deu, o Eterno tirou: que o nome do Eterno seja abençoado".

Breves e eternos como todos os verdadeiros encontros, os tais que há, são os desenhos admiráveis, na sua bênção e na sua maldição, criados pela mão de José Rodrigues, a mão direita, a mais feita para voar.

Por mim, penso e sinto que o desenho é o meio mais seguro para uma reciprocidade de entendimentos. Porventura "a mãe de todas as artes". Um meio de manifestação estética e uma linguagem expressiva para o homem enquanto modo básico e fundamental da criação artística. Que o digam os eternos Leonardo Da Vinci, Dürer, Michelângelo, Rembrandt, Toulouse-Lautrec, Picasso e tutti quanti.

O desenho, estes prodigiosos desenhos de José Rodrigues, dados à imagem e à estampa nesta publicação, são ba-sicamente suportados por linhas, texturas e sombreados, expressando e convocando uma realidade evocada ou imaginada, constituindo os instrumentos usados um pro-longamento da própria mão que assim corporiza visualmente o pensamento.

O registo desenhado tem, na sua génese, a experiência e a observação da realidade e da sua recriação ou reinvenção. O artista regista a sua visão subjectiva da realidade ou da surrealidade, usando um processo de descodificação que associa automaticamente o representado ao conhecimento que tem para o mundo, ainda que reinventado. Por seu lado, o leitor do desenho só verá nele o que conseguir ou quiser entender, estando sob a directa sujeição da sua própria enciclopédia cultural, não fossem, como são, a cultura e a sensibilidade as condicionantes das dinâmicas interpretativas da obra de arte.

O criador da obra de arte parte da conceptualização, da semiotização e vai pela enunciação para chegar ao "discurso" artístico, em função de um "eu" e de um "tu"e de um conjunto de signos, enquanto o interpretante segue o caminho exactamente inverso: parte do "discurso" ou desenho que percepciona, passa por um processo de identificação e compreensão dos signos que lhe são dados observar, para, finalmente, reagir em função de outros saberes, de outras informações da sua cultura.

Estes desenhos de José Rodrigues partem de uma linha pura para se concretizar no tom, também ele puro, fazendo uso de técnicas como o "sfumato"e o "chiaroscuro" (termos usados por Leonardo para sugerir forma e volume através de uma subtil mistura de matizes e uma técnica de claro/escuro, também chamada perspectiva tonal, que exige um conhecimento da perspectiva, do efeito físico da luz e das sombras).

Assim, estes desenhos constroem figuras e formas, abrem espaços e evasões, convocando e fazendo comunicar e interagir luz, sombra e meios-tons na representação de texturas com vários "dégradés" nos olhares, ora luminosos de claridade, ora turvos de desejo, nos corpos, ora oferecidos e fendidos, ora fechados nas suas conchas contidas, nos entranhados e misteriosos interstícios de juventude eufórica e libertina e de velhice melancólica e descaída.

Ao traço destes desenhos tudo é e será sempre permitido, atendendo à delicadeza, à sensibilidade, direi mesmo ao pudor de um fazer erotizado. Não há vícios nem viciados nos desenhos de José Rodrigues, há, sim, um natural pulsar de corpos, uma atracção endémica, profundamente carnal e, por isso, mais profundamente natural. Também não há virtudes mas há a mulher e o homem e as suas pulsões. E esta naturalidade transforma a toada erótica em melopeia rítmica de um desejo ascético, levando-nos a dizer com Kandinsky: "A forma é a expressão do conteúdo interior".

Confirma-se assim o discurso amoroso como forma tributária de espaços múltiplos para além dos exclusivamente intelectivos. A declinação de um aceno, a evocação de um odor, o risco oculto de uma figura adivinhada, a solidão de um dia sem mácula e de uma noite pura, as palavras agarradas e gravadas ao corpo numa prova de mel, as portas abertas em todas as estações e idades, a barca da boca, das bocas, mudas e húmidas, conduzidas pela lín-gua, que te capturam, sonhando que te pertencem e serem tuas e serem tu, um único retrato na máscara nua de vários tactos, tratos e contratos, conduzem ao beneplácito da sua alteridade, descobrindo que o amor não se esgota, antes se alicerça em si próprio. Sentimento de comple-tude, mas sendo esta humana, só "infinita enquanto dura".

Que estes desenhos falem por si e que as suas mensagens se reproduzam numa estrita, íntima e, se possível, apaixonada sensualidade e espiritualidade de corpos, rostos e espíritos, em traços simples, mas sensitivos, que conduzam ao enamoramento. Como "fragmentos de um discurso amoroso" e, reproduzindo Novalis, que reconstruam o sentido original do mundo. Cabe aos artistas cumprirem esse desígnio, esse destino. José Rodrigues deu maravilhosamente conta do recado e fê-lo a nu, despido de virtudes teologais e canónicas e de pecados mortais e morais.

Na esteira de um "anjo literário", agora de Federico Ferrari e Jean-Luc Nancy (Nous sommes ? la peau des images) desenhar, pintar ou fotografar o nu releva do mesmo desafio: representar a irrepresentável fugacidade do estar nu, o pudor instantâneo que vem ocultar toda a revelação e a indecência que vem revelar-lhe o secretismo.

Expõem isto: eis um sujeito no sentido estrito de sub-jectum, nada tem sob ele, já não esconde nada: repousa sobre ele e este "ele", em si, é a pele, a finura da pele e do seu "incarnat". O que o desenho, a pintura, a fotografia esclarecem quando possuem um "corpo" é a transparência que se joga sobre a pele, que faz a pele, uma aparição que nada faz aparecer, uma luminosidade que só se esclarece a si própria, um toque diáfano que não faz senão adivinhar o seu próprio contacto.

A nudez constitui actualmente um motivo insistente do pensamento: talvez remonte a Nietzche, o primeiro dos contemporâneos a escarnecer do europeu "ataviado de moral" que não pode desnudar-se sem vergonha. Talvez remonte ainda mais longe até àquelas estátuas gregas cuja nudez parece-nos haver sido a divindade ela mesma e cuja arte do nu retém sempre uma memória ligada à inquietação cristã da carne e simultaneamente a um sentido de uma exposição tão frágil quanto afectada. Estas três tonalidades do nu ? o nu divino, o pecado nu e a pele nua ? ocupam de vários modos o pensamento de hoje ao qual o título de Levi-Strauss "L?homme nu" poderia servir de emblema. Os nus dos pintores e escultores expõem este despojamento e esta suspensão na margem de um sentido sempre nascente, sempre fugidio e à flor da pele, a flor da imagem. O que nos conduz a esta forma de presença, tão densa quanto despojada, esta discrição em si de uma exposição completa, pudor e audácia conjugados num "parecer" que assume e consome o ser. Não o ser, de facto, mas o brilho, não a permanência mas a instantaneidade do que não se saberia instalar, e não um sentido a decifrar atrás dos signos e dos traços mas, sim, antes de mais, uma verdade mesma da pele.

Uma verdade mesma da pele, uma pele como verdade: nem além da pele que o desejo procura, nem o seu interior que a ciência visa, nem o segredo espiritual de uma carne desvelada.

A verdade sobre a pele é aquela que só é verdadeira a expor--se: a ser oferecida sem discrição mas também sem revelação. Porque o que o nu revela é que ele não tem nada a revelar ou então que ele não é senão a revelação de si próprio, o revelador e o revelado ao mesmo tempo. Assim ele se sustenta ? ele é só nu nesse lugar tão fino ? a pele ? e nesse tempo tão breve ? o gesto que desnuda.

O nu confronta-nos com um simbolismo que, como observava Michel Deguy, é ao mesmo uma a-teologia, o despojamento do divino de toda a forma de transcendência, uma ima-nentização do corpo divino. Neste sentido, o "incarnat" do nu é precisamente o despojamento da incarnação: uma incarnação sem redenção, sem espírito, sem verbo, sem epifania. Só resta a matéria palpável do traço, do risco do desenho que faz a carne: a superfície muda da nudez (ut).

Os desenhos de José Rodrigues, o seu extraordinário "incarnat" fazem sentir a carne: não só dão dela imagem como também a mostram na sua consistência.

Dão corpo e vida ao nu e permitem também penetrar na carne ? precisamente "in carnat", entrar na intimidade do nu. A intimidade, que é o que existe de mais interior e de mais escondido, torna-se superfície. A interioridade destes nus é a superfície, incarnada. O nu é estendido sobre a superfície do desenho. Os olhos fechados e semicerrados, os músculos distendidos e relaxados sobre a superfície do papel: é o abandono, a exposição total ao outro. Sem esta cumplicidade, sem esta confiança no outro, sem este deixar--se ir sem reservas, o nu não poderia incarnar-se na sua realidade. O "incarnat" é este sujeito que se retira, são estes olhos que fogem e que fazem com que só a pele se expõe, sem defesa, ao olhar e ao tocar do outro. O "incarnat" é o limiar de eros. Olho para esta mulher do desenho de José Rodrigues. Olho-a em silêncio. Afloro com os olhos a consistência do seu corpo, a sua intimidade, a sua estranheza. Gosto dela. Gosto mesmo dela.

Se a desejo ou não isso já faz parte de outra história que não é para aqui chamada.

MIGUEL VEIGA, Casa das Nuvens, em Cerveira.






















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