A Galeria JN, no Porto, expõe, de 6 de Março de 2009 a 11 de Abril de 2009, "Florestas", de Jorge Curval
A entrada é livre.
Edifício JN, R. Gonçalo Cristóvão, 195 4049-011 Porto. Horário: 2ª a 6ª feira, das 12,30h às 19,30h / Sábados, Domingos e Feriados das 15h às 20,00h
ao Diogo
Há pintores que, periodicamente, reelegem um género cujo hábito estava esquecido e cuja prática as modas por razões várias foram deixando cair, por desusada. Assim com a paisagem, e mesmo se sabemos que é verdade que, na cena contemporânea, muitos têm sido os que redescobriram, nessa temática da paisagem, motivos para reinvestir o seu desejo de pintura.
No caso de Jorge Curval, cujo trabalho já leva mais de duas décadas de procura sempre em torno da pintura-ela-mesma, mesmo se nem sempre esse trabalho tem merecido o reconhecimento do seu lugar, aquilo de que se trata não é tanto, porém, de re-visitar a paisagem sob a forma em si mesma contemporânea de procurar suscitar imagens da pintura, mas antes de re-visitar o próprio da pintura, no seu apetite por formas, sugestões, cores, matérias, gestos.
Ou seja, não se trata de fazer da pintura pretexto de uma reflexão sobre a imagem, ou da paisagem uma hipótese de partida para centrar o que, na pintura, é apenas da ordem da imagem mas, ao contrário, de reencontrar no seu ofício aquilo que, parafraseando Barthes, se poderia designar como um puro prazer da pintura. Quer dizer, o que chega de uma atenção muito subtil a elementos que, para além de toda a sua significação conceitual, reinvestem a pintura a sua prática de uma espécie de sensualidade, de uma carga de afectos, pulsões, desejos, ou mesmo de sentimentos que a tornam, de novo, coisa intensamente visual, susceptível de concitar uma vontade de a olhar, de a penetrar nas suas densas matérias, luxuriosamente cuidadas por entre zonas mais lisas e outras mais espessas, por cores e transparências, por vernizes que deixam que apenas a madeira dos suportes se faça fundo e cor ela mesma, e que reintegram no acto de pintar uma espécie de intensidade que vem directamente do corpo, mesmo se pagando o preço de passar por ingénua essa atitude que, no entanto, se refaz incessantemente como um elogio do visível (e, por tabela, do sensível), para retomar a bela expressão de Mérleau-Ponty.
Ora aquilo de que se trata aqui (ao que não será alheio o gosto pela prática das artes marciais que o pintor vem desenvolvendo há duas décadas pelo menos) é de algo cuja tradição, no ocidente, tem estado adormecido, mesmo se continua a estar por dentro da obra de todos os grandes artistas que utilizam a pintura. A saber, menos do que seria uma simples cópia da natureza, de que a pintura seria, reprodutivamente, mera representação, procura-se algo que, na tradição oriental mais remota, fez a fortuna de escolas milenares, algumas das quais persistem ainda: a prática de captar, da própria natureza, uma espécie de energia que se viria depois a fixar, através do corpo e do gesto do pintor, como inscrição da própria natureza num suporte.
Assim foram longamente os pintores chineses meros instrumentos de uma natureza que os inspirava no sentido mais profundo do termo, atravessando os seus corpos das suas possantes energias, que estes depois depositavam, com maior ou menor elegância, sobre o papel ou o pano em que tintas e cores misturando-se perpetuavam a intensidade de um encontro. Na arte do ocidente, ao menos recente, já apenas Tàpies recupera ainda este sentido da captação directa da intensidade em seu torno.
No caso da pintura de Jorge Curval e do que ela nos testemunha é precisamente dito que se trata: de uma vontade urgente, quero dizer de uma necessidade, de um desejo, de trazer para dentro desse puro prazer de pintar a que aludi atrás as próprias energias que antes captou na concentração do seu olhar e dos seus sentidos, despertos para essas mesmas intensidades.
Aquilo de que se trata, então, e por isso elas nos tocam, estas cores, estes misteriosos espaços que diante dos nossos olhos se vão abrindo, não é de uma simples representação de árvores, musgos, vestígios ou, numa palavra, de imagens representando a floresta, como antes da vida das florestas ela própria, tal como se pode chegar a inscrever, através do gesto de um pintor, nos suportes em que se fixa ainda o próprio sopro que antes tocou o seu corpo, os seus sentidos, a sua atenção, e cuja mais alta intensidade vai deixar, por dentro daquilo que ele pinta, a sua própria marca.
Bernardo Pinto de Almeida, Dezembro 2008
Vivemos uma época de pluralismos de ideias, de princípios, de enredos, de cores, de formas ?
Isto que, à partida poderia, poderia ser perturbante ? e, em certo sentido é ? permite libertar o pensamento de preconceitos de estilo, possibilitando, através de uma procura descomprometida, chagar a metas verdadeiramente diversificadas.
Curval movimenta-se neste universo plural. As suas pinturas, ou melhor, as suas criações não pertencem a uma galeria abstracta de objectos consagrados, já catalogados numa história académica.
Jorge Curval serve-se, antes, de uma alquimia em que as transmutações de materiais, assumem formas que continuam a propor-se à reflexão e à reelaboração.
Todos sentimos que esta sublimação das coisas que Curval recolhe na grande natureza, convertendo o orgânico e o objectivo em subjectivo, empresta-lhes um novo valor semântico que confere às suas obras um carácter marcadamente experimentalista associado a uma expressiva força transformista.
A.Soutinho
Jorge Curval nasceu no Porto em 1958.
Frequentou a FBAUP (Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto) de 1984 a 1987.
Participa desde 1984 em exposições individuais e colectivos em Portugal e no estrangeiro.
Instala-se no Atelier na Calçada do Monchique de 1988 a 1998.
Exposições recentes (selecção)
1996 - FAC?96 ? Feira de Arte Contemporânea, Porto ? Galeria Minimal.
- Estar (Galeria / Editora), Lisboa.
- Galeria Quatro.
1997 - "Desígnios", Cooperativa Árvore, Porto.
- I Bienal de Leiria.
1999 - ISEP (Inst. Sup. de Engenharia do Porto), Porto.
- "Dojo", Galeria Minimal, Porto.
- Museu Amadeo Souza Cardoso, Amarante.
- Museu Nacional Soares dos Reis, Porto.
- X Bienal de Cerveira, Vila Nova de Cerveira.
- FIIC/FAC?99, Feira de Arte Contemporânea, Lisboa ? Galeria Minimal.
2000 - "Desígnios II", Galeria Minimal, Porto.
- FIIC/FAC?2000 ? Feira de Arte Contemporânea, Lisboa ? Galeria Minimal.
2001 - ARCO 01, Madrid, Galeria Minimal.
- "Incêndio 98", Galeria Minimal, Porto.
- Artista seleccionado para a exposição "Citações/Situações", inserida na
Capital Europeia da Cultura, Porto 2001.
- ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.
2002 - ARCO 02, Madrid, Galeria Minimal.
- "Trees", Galeria Minimal Porto.
- ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.
2003 - "Ruptura 98", Instituto Superior Politécnico de Viseu, Viseu.
- "Natureza Perpetuada", Casa Melo Alvim, Ciclo Vinho Sentido, Viana do Castelo.
- Artista convidado para a Bienal de Cerveira 2003.
- "Observando a natureza de cada um", Galeria Minimal Porto.
- ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.
2004 - CHEN, Galeria Minimal, Porto.
- ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.
2005 - ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.
2006 - Exposição Museu Bienal de Cerveira.
2007 - ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.
2008 - ARTE LISBOA, Lisboa, Galeria Minimal.