Porto

Recuperação da Zona Histórica custa 230 milhões

Recuperação da Zona Histórica custa 230 milhões

O Centro Histórico do Porto tem 1796 edifícios, dos quais 653 muito degradados ou em ruína. Do total, 51 estão actualmente em obra. Para recuperar toda aquela área são necessários 230 milhões de euros, estima a Sociedade de Reabilitação Urbana/ Porto Vivo.

"Qualquer linha de metro em Lisboa custa este valor", constata Rui Loza, arquitecto, docente universitário e administrador da Porto Vivo, durante a sua intervenção num colóquio na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto sobre o tema "Reabilitação Urbana e Impacto Social". Porém, acrescenta, com "a legislação, as condições económicas e sociais e todo o cenário que é Portugal" serão necessárias décadas para reabilitar quarteirões.

O evento, organizado pelo Grupo de Reabilitação Urbana (GRUA), nasceu das "inquietações de alunos e arquitectos sobre a reabilitação da Baixa portuense". Nuno Grande, arquitecto e docente universitário, apresentou-se como o "agente provocador" e cumpriu a promessa.

Pôs em causa a filosofia de reabilitação da Porto Vivo, que intervém por quarteirões quando a cidade foi crescendo por lotes. "É uma perspectiva de reabilitação muito discutível. Diria mesmo que é o pior que o fachadismo tem", criticou, referindo-se a uma época (início século XX) em que apenas as fachadas dos edifícios eram tidas em conta nos processos de licenciamento.

Pegando no exemplo de um conjunto de edifícios que estão em obra no cimo da Rua de Mouzinho da Silveira, Nuno Grande criticou a SRU por estar a criar apartamentos para a família de "target elevado" que há anos foi viver para a Foz, para Matosinhos-Sul ou para a Maia. "Essas pessoas não vão voltar para os centros históricos", afirmou o docente, considerando que serão, sobretudo, as famílias monoparentais, pessoas que gostam de estar sós, criativos e homossexuais que vão procurar casa na Baixa.

Na mesma empreitada na Rua de Mouzinho da Silveira, Nuno Grande aponta o dedo à obsessão da Porto Vivo "pelo estacionamento". Parte do terceiro piso daquele edificado vai ser transformado em parque para os automóveis dos residentes. "Que sociedade urbana é que esta que queremos trazer para o Centro Histórico?", questiona o arquitecto, considerando que o ideal seria um centro de cidade que reunisse todas as sociedades urbanas.

Para isso é necessário que as SRU respondam à procura, sejam "alfaiates cosmopolitas". "Tal como o alfaiate que ajusta o fato ao cliente, as SRU devem ajustar a oferta a todas as medidas", concluiu o docente, arrancando aplausos dos estudantes.

Também Virgílio Pereira, sociólogo que estudou o morro da Vitória, deixou as suas preocupações. "O Porto passa por um fenómeno muito severo de abandono urbano. É um desafio muito complicado, espero que as políticas da Câmara resultem, mas tenho receio que possam não resultar", afirmou. Mais importante que o regresso dos estudantes, "é encontrar formas que façam com que os filhos e os netos dos que vivem na Vitória possam lá ficar", concluiu o docente.

Sobre o outro morro, o da Sé, falou Paulo Valença, coordenador do projecto de Reabilitação do Morro da Sé. O arquitecto elencou as necessidades daquela zona (apenas 4% dos edifícios não precisam de obras) e apresentou os projectos em curso - uma residência para 120 estudantes, um hotel, a ampliação de um lar e um projecto de realojamento para quem vive em edifícios com poucas condições. O plano para o Morro da Sé pressupõe um investimento de 39 milhões de euros.

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