Reportagem

As mil colinas de um genocídio no Ruanda

As mil colinas de um genocídio no Ruanda

Ao 15º dos "cem dias" que durou o genocídio do povo tutsi no Ruanda, entre abril e junho de 1994, Gilbert fugiu da morte pisando corpos. É um dos sobreviventes. Dos que conta como muitos membros da Igreja Católica participaram num dos piores massacres da história da humanidade. Revisitamos uma reportagem realizada em 2012, no dia em que o papa pediu perdão por tudo.

Gilbert correu por uma delas abaixo. E outra acima. Desceu-a. Viu sangue no pé. Seria dele? Podia ser dos corpos sobre os quais voou quando fugiu da "cozinha". Subiu outra colina - elas sucedem-se, intermináveis, mil em qualquer dos horizontes - e outra. Não sabia nada do terreno que pisava. Ou quase, a não ser que, lá ao fundo, vivia uma prima afastada bem casada. O que, no caso, significava que os sagrados laços do matrimónio estavam abençoados pela superioridade de uma raça na verdade inexistente, incentivada, aferroada.

Gilbert tem 12 anos. Está ali com oito irmãos. Ali é uma colina das mil de um paraíso natural curto, o Ruanda sem planícies, o Ruanda da fartura agrícola, do clima assaz temperado, dos lagos balneares, dos gorilas na bruma e do assassínio de Dian Fossey, calada para sempre porque defendeu os animais em detrimento dos homens que viviam da caça furtiva deles, dos animais, porque aquelas mãos gigantes eram, vejam lá, cinzeiros apetecíveis no mundo dos idiotas. O Ruanda dos vulcões, dos verdejantes horizontes. O Ruanda negro, também, construído por colonizadores mentecaptos, reinando apostados numa divisão esquecida por séculos de convivência razoavelmente pacífica (o homem é um animal de territórios, não há volta a dar).

Gilbert tem os pais no Uganda, lá em cima, na segurança da luta contra preconceitos inexplicáveis. A humanidade tem destas inadmissíveis incongruências: a animalidade das massas...

A capital dos intelectuais

Ali, onde Gilbert está, é Murambi, colina aberta no vale de outras, nascida próximo da cidade das universidades e dos intelectuais, Butare (hoje Huye, depois de alguém se lembrar de redesenhar os mapas das províncias e mudar-lhes os nomes, para anular rivalidades).

Ali, é uma futura escola politécnica, quase pronta. Os donos da província viram nela o abrigo perfeito para os tutsis da região. Ou de outros que ali acorreram, ao sul que já foi capital de colónia, para junto das elites intelectuais. O intelecto, é sabido, é portador de uma clarividência que contraria os instintos mais básicos. Prometeram-lhes proteção, os iluminados governantes regionais.

Os "cem dias" já tinham começado há 15, com o abate do avião que trazia o presidente Juvenal Habyarimana de um acordo de paz na Tanzânia - a luta fratricida arrancara havia 30 anos, prenhe da divisão deixada pelos belgas, no dá e tira do poder a este ou àquele. Presidente amolecido, fizeram-no cair no jardim do próprio palácio, em Kigali. E arrumaram com a primeira-ministra hutu moderada, mais os dez capacetes azuis que lhe vigiavam a moderação.

Murambi, afinal, era um embuste como outros, atrozes, manchando as mais inesperadas instituições. Gilbert não pressentiu o embuste. Mas não estranhou a história das semanas anteriores. "Eu tinha 12 anos, andava na escola, sabia perfeitamente o que se preparava, a inferiorização dos tutsis, a perseguição... só não sabíamos que ia ser assim..."

Atento, pais na resistência, ideais claros de fraternidade. Não sabe o que lhe passou pela alma naquela madrugada de 21 de Abril de 1994. "Foi o acaso". Desatou a correr. Duas horas antes, começara a matança em Murambi.

Sim, Gilbert pisou a morte na sua fuga. Não, nunca olhou para trás. Sim, os irmãos ficaram. Não, o pé, nunca olhou para ele. Olha agora, tantos anos depois, quando afasta a meia de desporto para mostrar a menor das cicatrizes que carrega. A maior, essa, precisa de horas para ser dita. Engole-a. Escrevê-la-á mais tarde, se eu quiser.

Gilbert tem 30 anos e dirige o memorial de Murambi, que faz questão de mostrar pessoalmente a quem aparece, ao cabo de uma viagem de três horas em autocarros locais e moto-táxi desde a capital. Não diz quem é. Só quando lhe pergunto pelas memórias de infância. "Sou sobrevivente". Foram 12, em 50 mil, só ali, perdidos num único dia.

Gilbert Sezirahiga. É o nome dele. Quem percebe do assunto - restarão alguns, velhos como a raiva - lê nele genealogia tutsi. Ele faz por não querer saber, transportando a mensagem da união nacional e clamando que, não fossem muitos hutus (como o marido da prima da longínqua colina) a salvá-los, não restariam tutsis para contar a história.

A raça ditada pelo número de vacas

Apesar de ter largado a namorada hutu que os pais resistentes se limitaram a desaprovar com um torcer de nariz, apregoa o fim das etnias "oficializadas" em 1959 pelo colonizador belga, esse que, sabendo que o medo e a perseguição são o mais seguro dos reinados, convenceu os ruandeses que os minoritários tutsis eram mais ricos, mais inteligentes, mais altos, mais claros e de nariz mais aquilino. Esse que lhes deu o poder, aos tutsis - antes ter a minoria a reinar sem o nervo das massas do que o contrário.

Fizeram mais, os belgas: contaram vacas, porque os tutsis são pastores. Mais de dez, és tutsi. Tudo devidamente registado no bilhete de identidade, na alínea "raça", escolhida uma de três opções, hutu, tutsi, twa. Os colonizadores gostavam de contas: calcularam 15% de tutsis, 84% de hutus e 1% de twas (pigmeus das montanhas). As diferenças, hoje como sempre, são uma agulha num imenso palheiro. Invisíveis.

Até que a minoria teve a veleidade de pedir a independência. O poder, passe de magia, saltou para os hutus, e, com ele, a soberania ruandesa. Grégoire Kayibanda ficou rei e senhor e iniciou a limpeza, levando ao extremo a definição belga. Os tutsis eram os infiéis, as baratas, os corruptos, as putas, a corja do mundo. Era 1963 e começaram os massacres, um deles em Murambi, de onde Gilbert nos fala, apontando as colinas. E outros, calendário adiante, com mais ou menos apoio externo pela via da ignorância e não só. Até ao dia 1 dos cem, 6 de abril de 1994, o dia da morte do presidente.

Atribuíram-na, claro, aos rebeldes tutsis. Até então, o exército formara a Interhamwe, uma milícia de jovens e, até, de crianças, recrutados um pouco por todo o lado, ensinados como touros enraivecidos. Bastou a propaganda aprendida com Goebbels, através da Radio Télévision des Mille Collines, um antro de ódio por destilar, para deixar a saliva soltar-se ao som da simples senha "Abatam as árvores altas".

Ntarama, a igreja féretro

Gilbert não dá pormenores. Estão-lhe no olhar. Fala nos tiros, nas catanas, nas paredes, a melhor das armas contra bebés - em Ntarama, 25 km a sul de Kigali, jaz quase intocado um dos lados mais abjetos dos cem dias: a roupa, o calçado, as bilhas, as panelas, as sebentas, os brinquedos, tudo aquilo que alguns milhares de pessoas carregaram para o recinto da igreja local na esperança de um futuro. A proteção divina materializou-se na denúncia, pelo próprio pároco.

Ntarama e Nyamata, cinco quilómetros adiante, fazem parte do distrito de Bugesera, para onde, ao longo de anos, deslocalizaram tutsis prometendo terra fértil. Era, afinal, inóspita, exceto para a mosca tsé-tsé. Queriam aniquilá-los pela doença, fumigá-los como praga. Eram milhares. Morreram assim, aos milhares, em igrejas. Na de Ntarama, alinham-se crânios estilhaçados por mocas de madeira, abertos à catanada, desfeitos contra tijolos. E urnas, algumas dezenas, coletivas ou não, cobertas de luto púrpura.

Na arrecadação que era sala de catequese, uma mancha enegrece a parede: a arma contra os infantes. A um canto, um pau afiado, metro e meio de altura. "Era com isto que eles deixavam as mulheres a morrer, enfiavam-no pela vagina, até cima, até onde podiam..." e rasgavam as barrigas de grávida e arrancavam os fetos para lança-los aos muros, exterminando qualquer hipótese de uma geração futura.

Ninguém cala o passado, a cor dos funerais pontua o país em memoriais mais ou menos intensos. O principal, em Kigali, tem uma lista incompleta de nomes - houve famílias perdidas para sempre, não restando ninguém para lembrar, sequer, um nome - e vários túmulos comuns, um deles coberto de vidro, a exibir mais caixões. São às centenas, coletivos.

A tragédia da justiça

O trabalho prossegue, 18 anos depois, com a memória viva, a justiça lenta, muitas vezes nos "gacacas", tribunais tradicionais, por falta de espaço na justiça oficial para tamanha chacina.

Alguns ordenantes, não todos, cumpriram pena no Tribunal Penal Internacional de Arusha, criado para debelar o emaranhado de responsabilidades. Outros "estão por aí, no Congo, na Europa... livres". Entre eles, estão os responsáveis do governo regional de Butare que prometeram proteção para melhor juntar o lixo que se impunha varrer.

Murambi era uma colina mista. Reunidos os tutsis, evacuaram as casas de hutus: se alguma barata fugisse, era abatida na mata, não havia como confundir-se com um hutu, porque tudo o que havia na mata, com tão apurada limpeza, só podia ser escumalha.

Hoje, parte deles estão nas salas de aula da escola técnica de Murambi. Foram exumados das latrinas e valas comuns, para onde muitos eram atirados vivos, e foram conservados em cal. Para que ninguém, nunca, esqueça a força da ignomínia.

Gilbert mostra-os, adultos, mulheres e homens, crianças, fetos arrancados a ventres, corpos contorcidos, o cheiro a morte apesar do tempo e da cal. Dois mil. Entre eles, provavelmente, algum dos irmãos de Gilbert. Resta-lhe um. Nasceu em 1995...

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