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Contra os jornais e as redes sociais, como é que Trump ganhou?

Contra os jornais e as redes sociais, como é que Trump ganhou?

Dois dos mais importantes jornais norte-americanos quebraram tabus e assumiram o apoio à candidata democrata, Hillary Clinton. De uma derrota quase certa, a uma vitória contundente, o que aconteceu do outro lado do Atlântico?

O "New York Times" assumiu, no final de setembro, uma posição clara de apoio a Hillary Clinton. "O nosso apoio justifica-se pelo respeito à sua inteligência, experiência e coragem", podia ler-se no texto publicado no site deste jornal.

Em relação a Trump, as palavras não apresentavam o mesmo nível de simpatia: "Trump é o pior candidato nomeado por um dos principais partidos na história moderna da América".

O mais velho e mais rico homem a sentar-se na cadeira principal da Casa Branca também não granjeou o apoio do "Washington Post", que, no início de outubro, tornou evidente a simpatia por Hillary Clinton.

"Intolerante", "ignorante", "narcisista", "vingativo", "mesquinho" e "intelectualmente preguiçoso". Estes são apenas alguns exemplos de uma longa lista de adjetivos utilizados pela equipa de editores deste jornal para classificar o homem que vai governar o destino dos EUA e, verdade seja dita, de boa parte do mundo ocidental.

Paralelamente, nas redes sociais, cada vez mais utilizadas para o consumo de notícias, foram publicadas milhares de mensagens anti-Trump. Sem surpresa, uma das hashtags que saltou para os destaques do Twitter, logo após a confirmação da vitória de Trump foi #RIPamérica.

A clivagem entre as elites e o distanciamento dos media

Ao JN, Phillipe Vieira, jornalista da CNN, que acompanhou a noite eleitoral, em Atlanta, explicou que o resultado de Trump se deve a "um acumular de cenários que o beneficiaram", onde os media tiveram um importante papel. "Houve uma cobertura mediática algo irresponsável numa fase inicial da campanha, que ofereceu centenas de horas de cobertura gratuita, ajudando à propagação da sua mensagem", disse.

Para o jornalista, a vitória de Trump é a prova de que existe uma clara clivagem entre as elites e o mundo rural: "As elites não foram capazes de ter o mundo rural em conta e isso viu-se nas sondagens e em todas as previsões que apontavam para uma noite tranquila para Hillary". A estes fatores é ainda possível juntar o desencantamento das famílias "que não sentem os efeitos da recuperação económica" e receiam "não poder proporcionar aos filhos uma vida melhor do que aquela que os seus pais lhes deram".

A trabalhar na Universidade do Texas, em Austin, nos EUA, Josh Miller fala de um resultado que torna evidente a forma como "os jornalistas americanos andam desligados" das comunidades que cobrem. "Os jornais mainstream criaram uma opinião formada com base nas experiências de quem vive em bairros de classe média-alta", explicou o cientista social. "Há muita gente que não é abrangida nas sondagens ou que simplesmente tem vergonha de admitir o seu voto", conta.

Uma opinião partilhada por Rachel Mourão, professora de Jornalismo, na Michigan State University, nos EUA, que explica que os principais meios de comunicação "nunca acreditaram que Trump fosse capaz de vencer". "Existe um grande distanciamento para com o eleitorado de Trump, que é maioritariamente branco e vive nas áreas mais rurais e centrais do país", justifica a investigadora.

O desemprego e o autoproclamado Estado Islâmico, duas das bandeiras de Donald Trump desde o início das primárias, ajudaram-no a chegar a números que pareciam impossíveis até há alguns dias. Mas, a falta de capacidade de Hillary para galvanizar o eleitorado, depois de umas primárias difíceis contra Bernie Sanders, é um dos fatores apontados por Phillipe Vieira. "Há um forte sentimento anti-Hilllary que prevalece em grande parte da sociedade americana. Ela e a sua equipa tentaram conquistar estados vermelhos (republicanos) e esqueceram-se de proteger os azuis (democratas)", concluiu o jornalista.

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