Trump e as redes sociais

Dominar o Mundo a partir do Twitter

Dominar o Mundo a partir do Twitter

Não tem (ainda) tantos seguidores como Barack Obama, mas não há dia em que Donald Trump não recorra ao Twitter para dizer o que lhe apetece. Vamos mesmo aguentar quatro anos desta bomba-relógio?

Há um botão que o Mundo não quer que Donald Trump prima, e esse botão está no interior de uma mala nuclear. Mas há outro botão, não tão devastador nos estragos materiais e humanos que pode provocar, mas também ele poderoso nas ondas de choque causadas, que o sucessor de Barack Obama tem usado com incontido entusiasmo para comprar guerras em múltiplas latitudes. É o botão "tweet" (tweetar) da rede social Twitter, a principal janela de comunicação do presidente eleito dos Estados Unidos da América (EUA) com o Mundo.

É através desta plataforma, que tem um simpático pássaro azul como símbolo, que, mais parecendo um adolescente sem travões, o republicano que abanou as fundações da democracia planetária tem feito política como até agora ninguém ousara. Em 140 carateres e de forma inopinada, tão depressa faz a apologia do nuclear, como compara os serviços secretos norte-americanos a nazis. Pelo meio, ainda tem fôlego para atacar atores de cinema, apresentadores de televisão, órgãos de Comunicação Social, empresas multinacionais ou Estados como a Rússia e a China. E o México, claro. A pergunta do milhão de dólares (como falamos de Trump, é melhor dizer dos mil milhões de dólares) é esta: estamos perante um caso de falta de decoro associada à personalidade caprichosa da personagem ou este deve ser visto apenas como mais um mecanismo de demonstração da sua autenticidade política?

Uma recente sondagem indicava que a maioria do eleitorado norte-americano é favorável ao encerramento da conta de Donald Trump, mas são muito poucos os que acreditam que ele venha efetivamente a fazê-lo. Além de que as sondagens, como atesta o triunfo inesperado do excêntrico milionário, não vivem propriamente uma fase dourada de credibilidade.

"Ele é um demagogo. E já tivemos demagogos na era da rádio e na era da televisão. Ele é um demagogo na era das redes sociais, mas não acredito que sejam coisas muito diferentes", afirmou, recentemente, à "New York Magazine", o historiador David Greenberg, autor do livro "Na República do spin: uma visão histórica da presidência americana". "Ele fica online quando quer comandar as parangonas de uma forma fácil e rápida. É mais simples do que convocar uma conferência de Imprensa ou divulgar um comunicado oficial", acrescentou ainda.

Mas será aceitável que a principal ferramenta de comunicação do mais poderoso homem do planeta seja uma rede social? Paulo Querido, ex-jornalista e especialista em Inteligência Artificial, não tem dúvidas: "Para os intermediários - isto é, os media, - é inaceitável, evidentemente. Para a classe política e os interessados no desenrolar da governação, é aceitável, mesmo que cause algum desconforto inicial por obrigar a novas rotinas. Para a grande maioria dos cidadãos é totalmente aceitável", refere, sublinhando que a generalidade do público nem compreende a questão.

É de eficácia que falamos. E Trump consegue exercê-la como ninguém. Com 19,7 milhões de seguidores e mais de 34 mil tweets, não há praticamente dia em que o presidente eleito dos EUA não se dirija ao Mundo. O seu relacionamento com a rede, de resto, não se alterou depois de ter ganho as eleições. Trump-candidato tem o mesmo comportamento de Trump-presidente-eleito. Porventura terá, até, acentuado o caráter corrosivo das suas publicações.

Ora, tratando-se de tão singular criatura, qualquer vaticínio sobre se o seu comportamento será temperado depois da nomeação (marcada para a próxima sexta-feira, 20) é arriscado. "Acredito que ele vai manter a conta ativa, talvez até mesmo mais do que na época da campanha. Ele parece acreditar que a conta promove um canal direto de comunicação com os seus eleitores, enquanto os media distorcem a sua imagem", antevê Rachel Mourão, professora de Jornalismo na Universidade do Michigan, nos EUA.

Não é, aliás, por acaso que a conta tem a designação escolhida, acrescenta Francisco da Silva, antigo diretor de marketing do Twitter Portugal e consultor de marketing e de comunicação política. "'The real Donald Trump', ou seja, o Donald como ele é para os seus, o Donald do 'locker room talk', o Donald sem filtro. E nisso não nos tem desiludido. No entanto, a elevada maturidade digital da equipa de comunicação da Casa Branca resulta em algumas regras que têm de ser cumpridas. Entre elas está o Presidente dos Estados Unidos da América utilizar a conta oficial criada para o efeito. Nada impede, no entanto, Donald Trump de refletir a sua personalidade nesta conta e acredito que irá fazê-lo caso chegue a tomar posse", conclui Francisco da Silva, um dos mais ativos twitters portugueses. Os seguidores de Trump superam os da conta oficial de Barack Obama, que atinge os 13,4 milhões, com apenas 341 tweets, mas Obama pulveriza o sucessor na conta alternativa, com 80,5 milhões de seguidores e 15 mil tweets.

A imagem de Donald Trump a tweetar a partir do telemóvel não é muito convencional, mas não foge à realidade. Isso mesmo reconheceu o próprio numa entrevista a Anderson Cooper, pivô estrela da CNN, canal de televisão entretanto considerado proscrito pelo republicano, depois da divulgação de um alegado relatório secreto que, entre outras revelações, expunha comportamentos de devassa sexual de Trump e uma ligação demasiado estreita ao regime russo.

"Durante o dia, no escritório, eu só grito (os tweets) para as jovens, que são fantásticas. Eu grito e elas fazem". E isso inclui os pontos de exclamação a que tantas vezes recorre. Normalmente, Trump só escreve os próprios tweets a partir das sete da tarde. E quando está em casa. De acordo com o "The New York Times", mais de 100 tweets foram enviados do telefone do novo líder dos EUA enquanto estava num dos seus muitos campos de golfe.

"Os media têm sido alvo direto da campanha dele, pois afirma que é tratado injustamente pelos grandes veículos. Por isso não fala quase nunca com repórteres e prefere mandar seus assessores aos canais de televisão, enquanto ele mesmo prefere o Twitter, no qual posta em primeira pessoa e de forma mais casual e direta", torna Rachel Mourão. Leitura idêntica faz Francisco da Silva, adaptando a visão à realidade portuguesa. "O Twitter veio de certa forma substituir as agências internacionais de notícias e também as nacionais, ganhando um espaço que por exemplo em Portugal era da Reuters e da Lusa", refere. "O Twitter permite a Trump colocar-se ao lado do cidadão comum contra os intermediários dos quais este desconfia cada vez mais ('desconfiar' é aqui um verbo simpático)", ironiza, por seu turno, o ex-jornalista Paulo Querido.

Trump é um dos mais mediáticos utilizadores globais do Twitter, projetando sobremaneira aquela rede social. O JN procurou, por isso, saber junto da empresa sediada em Dublin, na Irlanda, como olha para o facto de ser o veículo de comunicação preferencial do norte-americano. Inquirimos, também, a multinacional sobre se já recebeu queixas relacionadas com a forma como Trump usa aquela rede, mas estas e outras dúvidas obtiveram a mesma reação: "Vamos encaminhar as questões presidenciais para a agência de comunicação da Casa Branca e para a equipa de transição de Donald Trump".

A relação de Trump com o Twitter é de elevada sensibilidade por vários motivos, mas em particular porque aquilo que ele escreve tem, por vezes, a força destrutiva de um míssil. Refira-se, a título de exemplo, que, cinco minutos depois de ter tweetado sobre as intenções da marca automóvel Toyota de construir uma fábrica no México, e de a ter ameaçado com mais impostos, as ações em Bolsa da multinacional japonesa desvalorizaram mais de mil milhões de euros.

Os tweets de Trump custam muito dinheiro, de facto. E nem a companhia norte-americana de aviação Boeing escapou à ação dos dedos em forma de pistola do magnata, que ameaçou acabar com todos os contratos governamentais, por excederem em quase quatro mil milhões de euros o valor previsto. Resultado: a empresa perdeu mil milhões em Bolsa enquanto "o Diabo esfrega um olho", que é como quem diz enquanto Trump tweeta um desejo.

Mas ele não parece excessivamente preocupado com a chuva de reações à sua conta no Twitter. Na verdade, são mais os retweets (encaminhamento de outros tweets) que mais dores de cabeça têm dado a Donald Trump, em particular porque cometeu a imprudência (ou não) de alimentar ódios ultra-nacionalistas e posições dos defensores da supremacia branca. Racistas e xenófobos. Em alguns casos, Trump, meio a brincar, meio a sério, atirou as culpas para o estagiário que estava de serviço às redes sociais.

Porém, onde muitos detetam um problema, outros tantos vislumbram uma oportunidade. É tamanho o impacto dos tweets de Trump que uma empresa norte-americana decidiu criar uma aplicação (Trigger - gatilho, em Português) que avisa os subscritores sempre que o líder dos EUA tweeta sobre determinada empresa. O utilizador pode escolher a empresa em relação à qual quer manter-se informado, não vá dar-se o caso de precisar de alienar muito rapidamente algum do capital investido a expensas de mais um desabafo presidencial.

A conta de Trump é uma constante bomba-relógio. De tal forma que uma das mais originais contas-paródia existentes no Twitter à conta original acaba por ser algo contranatura. Porque é uma conta séria, de um homem ponderado e maduro. Daquilo que muitos esperariam ver no presidente dos EUA. "Presidential Trump" conseguiu compor a compostura do republicano, replicando, em versão sóbria e politicamente correta, todos os tweets postados pelo desbocado multimilionário. E é tão bem sucedida na missão que a conta paródia é que parece ser a verdadeira e não o contrário.

"Tudo o que as teorias de comunicação política preveem parece-me incapaz de explicar o fenómeno de Trump atualmente. Durante a campanha, todos achavam que sua mensagem era nociva demais e que não havia hipótese de ele ganhar com esse discurso, quando na verdade parte desse discurso foi atrativo para muitas pessoas", ilustra a investigadora e professora universitária Rachel Mourão.

Seja como for, o grau de exposição de Trump numa rede social, sendo permanente, pode acarretar demasiados amargos de boca para a diplomacia norte-americana. "Para todos os efeitos, destruir a personagem Donald Trump, a partir do momento em que foi eleito, é destruir o Presidente e também o sistema democrático americano. É um enorme golpe na ideia de 'líderes do Mundo livre' que demorou muitos anos a implementar e que permitiu aos EUA intervirem em inúmeros países em nome da instauração da democracia", afirma Francisco da Silva.

Quem será capaz de travar Donald Trump senão ele próprio? Esta é, porventura, a sua maior força: a imprevisibilidade e a ausência de qualquer respeito pelas normas. Governar, por isso, a partir do palanque de uma rede social, sendo pouco ortodoxo, tem-se revelado de uma enorme eficácia. E na escala de prioridades do presidente eleito dos EUA é essa a lógica que prevalece.

"No Twitter não está sujeito a perguntas embaraçosas emitidas em direto e/ou gravadas, podendo escolher a quem decide responder e em que altura", assevera Paulo Querido.

E haverá tantas perguntas embaraçosas para fazer a Donald Trump até 2021...

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