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Escola britânica que seleciona alunos gera polémica

Escola britânica que seleciona alunos gera polémica

A abertura de uma escola pública seletiva no Reino Unido está a gerar polémica. Os sindicatos de professores estão a preparar uma batalha legal contra a nova instituição de ensino. Em Portugal, a ideia britânica também não colhe simpatia.

A "grammar school" em Sevenoaks, Kent, na Inglaterra, teve luz verde do governo britânico e é a primeira instituição do género a abrir em meio século. O país tem, desde o século XVI, outras escolas do género mas, desde 1965, que têm vindo a ser eliminadas progressivamente e substituídas por um sistema tolerante. A decisão estava pendente desde o ano passado, tendo sido adiada durante a campanha das eleições legislativas de maio.

A nova escola pública vai selecionar 450 alunos a partir dos 11 anos. Estes terão de realizar um exame de seleção, conhecido por "11 Plus", onde se avalia quem se adequa à instituição.

"Há estudantes que estão destinados a frequentarem a universidade e a conseguirem melhores empregos. E depois, existem os que têm aptidões para profissões menos célebres", disse a BBC, ao explicar as características de uma escola deste género.

A notícia atraiu instantaneamente fortes críticas aos "conservadores", até porque o primeiro-ministro britânico, David Cameron, tinha afirmado, em 2007, que "os pais não querem os filhos divididos em ovelhas e cabras aos 11 anos".

"Este é um enorme recuo do primeiro-ministro. Mais uma vez diz uma coisa mas faz o oposto", disse a deputada Lucy Powel. Já a secretaria de Educação britânica, Nicky Morgan, explica que a nova escola é uma "expansão genuína" de outra já existente e não uma mudança na política de educação.

Vários sindicatos de professores e ativistas uniram-se, entretanto, contra a abertura desta instituição de ensino e estão a preparar uma batalha legal para travar a abertura de novas escolas públicas seletivas.

E se existissem escolas públicas seletivas em Portugal?

Paulo Guinote, professor do 2º ciclo do Ensino Básico em Portugal, é contra a existência de escolas seletivas: "Discordo que uma escola pública - ou financiada com dinheiros públicos - faça este tipo de seleção à entrada."

"Este tipo de prática poderá ser admissível em escolas privadas com projetos elitistas ou mesmo confessionais, mas não num sistema público que se pretenda universal e de acordo com os princípios da igualdade de oportunidades e da equidade de tratamento", acrescenta.

Para este professor, autor do conhecido blogue "A Educação do meu Umbigo", se este tipo de mecanismos se tornassem legais em Portugal, essas escolas causariam um aumento de desigualdade de condições de funcionamento nas escolas públicas que "neste momento funcionam a duas ou três velocidades - algumas funcionam sem laboratórios ou mesmo sem um pavilhão para a prática da Educação Física."

Para Almerindo Afonso, diretor do Departamento de Ciências Sociais da Educação da Universidade do Minho, as "grammar schools"foram muito importantes para os interesses e estratégias educacionais de alguns setores das classes dominantes, antes da existência das políticas de igualdade de oportunidades e da democratização da educação na Inglaterra.

"Em Portugal, os antigos liceus recebiam mais alunos das classes médias e dominantes do que das classes trabalhadoras. No contexto da democratização do país, pós-abril de 1974, acabou-se com esta indução diferencial classicista e criou-se a escola pública aberta a todos os grupos sociais", referiu.

"Não acredito que possamos, dentro de pouco tempo, criar uma escola pública assumidamente seletiva desde a entrada, mas já temos, nesta mesma escola pública, a prática de lógicas e estratégias cada vez mais diversificadas, seletivas e discriminatórias, que acentuam as desigualdades de classe no interior da escola", alerta Almerindo Afonso.

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