Pedrógão Grande

"Nem pudemos ver os nossos mortos! Imagina o que isso é?"

"Nem pudemos ver os nossos mortos! Imagina o que isso é?"

Albina conta a história da cunhada Gina, que se salvou mas perdeu a filha e a mãe. José trouxe a neta Iara para ela pôr flores na maldita estrada. Dina e João trouxeram Marcelo, o presidente que é humano como nós

Albina, irmã de Aníbal, cunhada de Gina, tia da pequenina Bianca, a Bianca de Nodeirinho que morreu com a sua avó a arder, as duas agarradas dentro de um carro encurralado, admite que agora só chora sozinha. "À frente deles não, tenho que ser forte, ou parecer forte, mas quando me apanho sozinha não consigo, elas começam-me a cair cara toda abaixo, às vezes é de repente, assim sem eu querer, isso é normal, não é?". Albina sabe que sim, mas sabe que o que era normal agora deixou de o ser, e diz depois a seguir: "De repente, sem que nós quiséssemos, a vida mudou. Mudou tudo para nós. E mudou para sempre".

Faz esta segunda-feira (dia 17) um mês que aquilo sucedeu - o mais grave incêndio de sempre em Portugal, o do "downburst" diabólico, o dos tornados de fogo: 64 mortos, 37 deles cauterizados na estrada, a EN236-1, a da matrícula da morte que tudo extirpou, mais as dezenas de feridos, as 481 casas ardidas, 169 delas eram primeira habitação, 23 809 hectares de terra carbonizada em três concelhos, Pedrógão Grande, Castanheira de Pêra, Figueiró dos Vinhos, mais milhares de pessoas em stress pós-traumático - e Albina precisa de contar o que lhe aconteceu.

Falamos num café escurinho, abaixo da sua casa, estamos no centro de Pedrógão, a temperatura vai outra vez aos 37 graus. Albina trava, fecha muitas vezes as frases a dizer "mas pronto...", como se se quisesse enganar e conformar, os olhos à beira da detonação. Naquele dia ela estava cá em baixo na vila, trabalhou no lar da Misericórdia das oito às cinco, a mãe está lá interna, era um sábado normal. Antes de sair, eram três, viu fogo lá longe na Pampilhosa, duas horas depois já galgava as Fontainhas, ela alarmou-se, às seis o céu enegrecia, quando quis ir ao Nodeirinho ver da família, os telefones já não estavam a dar, já não se conseguia passar. É Marcelo, o sobrinho de 19 anos, que à meia-noite lhe dá a notícia da desgraça, agarrado a ela a bradar: cercados de fogo, Marcelo, a mãe Gina, mais a Bianca, a irmã, e a Maria Odete, a avó, largaram a casa e atiraram-se em pânico à estrada, o pai dele, o Aníbal, ia noutro carro com vizinhos atrás. Só andaram uns metros, o fogo rugia a voar, o carro começou a arder, ele viu o pai continuar. Conseguiu sair, Marcelo, a mãe Gina também, iam ambos à frente, a Bianca e a avó estavam atrás, encurraladas, as portas incharam, não abriam, eles tão aflitos, tentaram por dentro, depois por fora, pontapearam as portas, tudo a arder, ardiam as mãos e os braços, não as conseguiram tirar, fugiram aterrados sem morrer.

Albina não imagina, não quer sequer tentar, na sua cabeça há um abismo que nunca se há de tapar. "A Gina nunca mais vai recuperar, perder assim a filhinha...". E Albina quer continuar mas a voz furou e vai-lhe fugir. Há de dizer depois: "Sabe o que é pior? Nos funerais não pudemos ver os nossos mortos, os caixões vinham fechados, não nos despedimos deles, não nos deixaram ver, não sabemos o que ia no caixão, ai que revolta, o caixão pequenino da Bianca ia tão levezinho, meu Deus, alguém imagina o que isso é?". E depois de mais silêncios, Albina levanta-se, despedimo-nos, ela vai. "Tenho que ir ver da Gina e fazer-lhes o comer. Ela teve ontem alta, saiu do Hospital de Coimbra, está traumatizada, muito sedada, tem os braços queimados, as pernas enxertadas, não a deixo ir para a casa dela, fica na nossa casa até ela querer".

Vamos a outra aldeia, é o mesmo concelho, é a mesma desgraça, e o senhor R, agente funerário em choque que pede para ficar anonimato, abana a cabeça em silêncio, olha com olhos cerrados. "Tenho uma vida de funerais e nunca vi nada assim. Nunca. Nada. Nunca. Nós não vimos nenhum corpo, sabe?, as famílias também não, para mim foi a primeira vez, todos os caixões chegaram selados, sim, dizem os colegas das funerárias, os 64 caixões dos mortos estiveram sempre fechados". E o senhor R pede agora desculpa, pede para corrigir: "Afinal já tinha visto, já, até queria esquecer, aqui há anos fiz o enterro de um carbonizado e ele ficou isto, assim", diz o agente a abrir os braços até ao tamanho encolhido de uma caixa de sapatos ou pouco mais: "Isto, era só isto o corpo todo do homem, um naco negro de carvão, cabia numa caixa, não dá para lhe descrever" - e ele baixa finalmente os braços.

Saímos, seguimos em silêncio, andamos de novo na EN 236-1, a estrada que é uma serpente preta, que aferrou 37 corpos ao fogo, aqui, ali, mais à frente outra vez há pequeninos ramos de flores na berma, umas são de plástico lacrimado, as outras secaram e douraram, está aqui muito calor, está ali um homem e uma menina pequenina de olhos muito grandes e muito tristes, ela traz malmequeres cromados na mão. É José Augusto Carvalho, veio com a neta de 8 anos, Iara, ele diz: "A pequenina queria homenagear a coleguinha que morreu aqui, morreu ela, o irmãozinho e o pai e a mãe, morreram aqui, disseram-nos, nesta maldita estrada, morreram a arder dentro do carro, eles eram aquela família de Sacavém que veio aqui de fim de semana, moravam lá em frente à nossa casa em Sacavém, que tragédia, Jesus...", e José diz que não dá para acreditar.

Temos que voltar ao Nodeirinho, a aldeia-mártir da Bianca, a Bianca tinha 3 anos, faria 4 no próximo dia 2, ali, nos Pobrais e na Vila Facaia, em cada uma das três aldeias 11 pessoas pereceram, seguimos pelos caminhos municipais, CM 1170, CM 1169-1, é o cruzamento do Outeiro. É ali o tanque que salvou os 20, é o tanque ladeiro à casa da Céu, está ali Aníbal, pai da Bianca, ele veste de preto, é consolado pela Dina, é maravilhosa a Dina, é psicóloga, foi ela que trouxe cá anónimo o presidente Marcelo faz agora uma semana, a Dina é casada com o João, o João é jardineiro e é artista, já pintou três quadros de sofrimento, "ele é assim, pinta para não berrar", diz a Dina a abraçá-lo, está ali mais gente, estão a plantar alfazemas e alecrins, olhamos à volta e tudo está queimado, mas o ar já cheira bem.

Ainda havemos de voltar à casa deles, da Dina e do João, a porta está sempre aberta, eles são xamânicos, acreditam na proteção das preces à mãe-Terra, eles não nos vão deixar sair sem jantar, "ora essa, que desfeita, não pode ser", e insistem e tornam a insistir, chegamos como estranhos, comemos logo como amigos, a Dina explica o que vai acontecer. "É muito simples, a nossa casa não ardeu, as árvores sacrificaram-se por nós, sim, são das boas, carvalhos, sobreiros, amieiros, pedimos proteção, ela veio, agora só temos que passar o resto da vida a agradecer. Vai ser assim, acreditem, vamos ajudar os outros até morrer".

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