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Parlamento não troca garrafas por água da torneira

Parlamento não troca garrafas por água da torneira

O Conselho de Administração da Assembleia da República deu um parecer negativo a um projecto de deliberação do Partido Socialista para substituir as garrafas de água mineral por jarros com água da torneira, alegando falta de garantias de higiene e... apoios à indústria.

"Mas a mais séria das questões é a higiene. Se ela é indiscutível na água engarrafada, não se pode assegurar no uso da água da torneira essa água 'bacteriologicamente pura' que se espera. Não temos meios para o garantir, quer na origem quer na distribuição", lê-se no parecer da secretária-geral da Assembleia da República, Adelina Sá Carvalho, para o órgão de gestão, que o apropriou e tornou seu.

"É uma afirmação gravíssima e põe em causa o sistema nacional de abastecimento de água, pois, se nem no de Lisboa confia, o que será do resto", disse ao JN o dirigente da Quercus Rui Berkemeier, enquanto o Ministério do Ambiente assegurou, em declaração escrita, que "a qualidade da água de Lisboa é de excelente qualidade".

"A questão da qualidade não contou na nossa apreciação", assegurou ao JN o presidente do CA, José Lello (PS), sustentando não haver "desconfiança em relação à qualidade da água" da rede, enfoque corroborado por Jorge Costa (PSD), segundo o qual "a intenção não foi essa" - pôr em causa a qualidade da água da torneira.

Em suma, diz José Lello, o problema é que não há pessoal suficiente para encher, substituir, lavar e secar jarros de água, que teriam de ser individuais. Nem locais apropriados para essas operações ("Não podem ser feitas nas casas de banho!"), pois junto das salas das 13 comissões não há copas. "Tudo isso, pessoal e locais, arranja-se, mas custa muito dinheiro", argumenta. Rui Berkemeier não aceita. "Também é necessário pessoal para andar a pôr e tirar garrafinhas e locais para armazená-las", diz.

O problema, diz Jorge Costa, "são os resíduos". É aos resíduos de plástico na AR que o projecto do PS, que cai nas boas graças dos ambientalistas ("Só é estranho que só o faça agora", diz Berkemeier), pretende pôr fim e até tornar o seu "exemplo replicável em outros órgãos de soberania e instituições públicas ou sob tutela do Estado".

Argumentos: mais de 98% da água da torneira é controlada e de boa qualidade; e 11% dos cinco milhões de toneladas anuais de resíduos urbanos são plásticos. Número apurado pelo JN: a AR gasta 3900 garrafas de 33 cl/mês, para as reuniões e visitas.

O que resulta do parecer do CA? Em Agosto, com o fim do actual contrato de fornecimento, além das 37 máquinas dispensadoras de água existentes nos corredores e gabinetes dos grupos parlamentares, serão colocadas pelo menos mais 13 nas salas das comissões.

Quem quiser água "levanta-se e pega no copinho de plástico e serve-se", explica Jorge Costa. Ou seja, mais plástico. E ainda água mineral, protegendo a indústria, que emprega 12 mil pessoas em 28 unidades e fornece um produto de "excepcional qualidade" e "100% natural e saudável", lê-se no parecer.

"Cabe-me recordar que a AR tem contratos com muitas empresas portuguesas de pequena e média dimensão (...) Qualquer retracção contratual terá (...) efeitos negativos na sustentabilidade das empresas", escreve Adelina Sá Carvalho, invocando a "responsabilidade social" que a AR "poderá assumir no período de crise que se instalou no país e para o qual devemos procurar não contribuir".

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