Opinião Rui Rio

Presidenciais: ponderação em nome da responsabilidade

Presidenciais: ponderação em nome da responsabilidade

1. Ao longo dos últimos meses saíram diversas notícias dando como certa a minha candidatura à Presidência da República e noticiando, inclusive, datas concretas para o seu anúncio público: primeiro junho, depois julho e, mais recentemente, setembro, e até outubro.

Sou totalmente alheio a todas essas notícias que, sem fundamento, inventaram essas datas, e estou mesmo em crer que algumas delas tinham apenas o objetivo político de tentar dar a falsa ideia de que haveria permanentes avanços e recuos da minha parte.

Assumi em 2013, na altura em que regressei à minha atividade profissional, que poderia voltar à vida pública se sentisse esse desejo numa parte significativa dos portugueses e se acreditasse que tinha condições para contribuir decisivamente para um alargado conjunto de reformas que considero fundamentais para o futuro do país e que, desde há muito, tenho vindo a defender.

Foi nesse contexto que assumi publicamente que estava a ponderar a possibilidade de uma candidatura à Presidência da República, e que não excluía a hipótese de a poder assumir ainda antes das eleições legislativas.

Depois de tantos anos na vida política ativa e com o nível de exposição pública daí decorrente, o exercício de um novo cargo de elevada visibilidade não é um afago à vaidade pessoal nem uma ambição que se realiza. É muito mais uma perda de liberdade e, muitas vezes, de rendimentos, que assumimos em nome do interesse público e com a convicção de que vamos conseguir dar um importante contributo para a melhoria da nossa sociedade.

2. É, pois, no quadro destes princípios que, tal como disse, tenho ponderado não só a própria candidatura, como o hipotético momento de a assumir; em particular, se deveria ser antes ou depois das legislativas.

Anunciá-la antes de outubro tem o aspeto positivo de conferir mais tempo para a montagem de toda a logística e do próprio financiamento da campanha. Mas tem, acima de tudo, a vantagem de, por antecipação, poder responder não só aos candidatos que já estão abertamente no terreno, como também àqueles que o vão estando de forma mais dissimulada, utilizando palcos televisivos de que os outros não dispõem.

É, aliás, esse elemento deformador da igualdade de oportunidades democráticas que é, em minha opinião, a razão primeira para alguns defenderem a priori que os candidatos só se devem apresentar depois de outubro, ou seja, quanto mais tarde melhor - porque quanto mais tarde, durante mais tempo se consegue usufruir de tais palcos. De resto, no tipo de democracia em que vivemos, também nada obsta a que possam ser taticamente exponenciados por outros comentadores que, sob a capa de uma alegada isenção, vão semanalmente transformando espaços de comentário em tempos de antena para a defesa dos seus objetivos políticos.

O conjunto de falsas notícias com base em fontes contaminadas, que se tem vindo a avolumar nas últimas semanas, com o intuito de me tentar descredibilizar e procurar evitar que eu antecipe para agora a minha decisão final, demonstra uma certa obsessão e revela, acima de tudo, grande receio perante a dimensão que uma candidatura minha poderá tomar na sociedade portuguesa. Que razão, senão esta, para tanta notícia, tanta especulação e tantos recados sobre um potencial candidato que alguns peões de brega até dizem que só no Porto é que o conhecem?

Só que a vantagem da antecipação tem um perfil iminentemente tático. Não é imposta por uma qualquer condicionante do projeto programático, nem corresponde a um genuíno desejo da sociedade.

O presente tumulto em torno das eleições presidenciais é uma matéria confinada à Comunicação Social e aos que, na política, para tal a procuram usar. A sociedade portuguesa ainda não despertou empenhadamente para o tema e só no momento em que tal acontecer é que todas as candidaturas poderão medir todo o seu potencial e toda a sua utilidade nacional; um aspeto que, como disse, será, para mim, sempre decisivo.

Basta olhar para as duas candidaturas já assumidas à esquerda, para se perceber que o entusiasmo que, nesta altura, conseguem despertar é manifestamente insuficiente para não dizer nulo. E mesmo no que concerne a outras mais à direita - que não estando vão estando - pressinto que essa estratégia tem originado mais anticorpos do que propriamente apoios e entusiasmo.

3. Ora, os pressupostos de uma minha candidatura não acomodam condicionantes exclusivamente táticas. Acomodam, como disse, um projeto para o país e a identificação de uma inequívoca vontade de uma parte substancial da sociedade; e nada disso me parece presente numa decisão que a ser tomada agora obedeceria apenas a ditames de natureza tática.

Acresce que aqueles que interiormente mais desejam a derrota da coligação não deixariam de procurar intoxicar a opinião pública, dizendo que, tal como Maria de Belém dividiu o PS, também o meu anúncio teria provocado uma enorme fratura numa coligação que estava vencedora e que, por esse facto, poderia deixar de o ser.

Um avanço meu no fim de julho ou no início de setembro (os dois únicos momentos de antecipação que efetivamente ponderei) iria, com elevada probabilidade, abrir as portas ao surgimento de um discurso político hipócrita, em que alguns dos que mais desejam a derrota do PSD não deixariam de aproveitar para o prejudicar eleitoralmente, alegando divisões que os próprios se encarregariam de construir.

Apesar de as circunstâncias serem muito diferentes - já que a candidata socialista avançou contra a vontade do seu líder - o meu avanço antes das eleições legislativas não deixaria de facilitar o seu aproveitamento pelos que pretendem diminuir uma consistente hipótese de vitória da coligação, que me parece que se está a desenhar no eleitorado.

As opiniões perversas, e as múltiplas notícias inventadas no sentido de me condicionarem têm, em mim, um efeito emocional contrário àquele que pretendem os seus autores; ou seja, impulsionam-me para fazer exatamente o oposto do que querem. Quem me conhece, sabe que assim é. Só que uma candidatura a Presidente da República é uma matéria demasiado séria para um candidato se deixar levar por impulsos de caráter emocional, obedecendo a um qualquer estado de alma ou a um puro ditame do seu ego. Por isso, dos parâmetros desta equação não podem constar esses elementos; só podem fazer parte os dados diretamente relacionados com o interesse do país e com as nossas mais sérias convicções.

4. Depois de ter ouvido muita gente que, de forma sincera, me foi dando a sua opinião, o resultado da minha ponderação - que o sentido da responsabilidade a todos impõe - é o de guardar para depois das legislativas a decisão final sobre uma candidatura a Presidente da República, na convicção de que os dados que, aqui e sempre, enunciei como determinantes para um meu regresso à vida pública, poderão ser, nessa altura, mais facilmente e mais livremente aferidos.

Tal como até aqui, poderão continuar a aparecer sobre mim notícias e comentários com base nas habituais fontes anónimas, próximas ou seguras, confundindo ponderação com indecisão e tentando baralhar quem ainda as lê ou ouve. Mas para efeitos do conhecimento da verdade, nesta matéria, conta o que eu efetivamente digo. E, sobre isto, o que eu digo, por norma, não é muito, já que nunca caio na tentação de confundir a realidade do país com o que, em circuito fechado, se vai recriando na futilidade de alguns corredores político-mediáticos.

Uma candidatura à Presidência da República, antes mesmo de o poder vir a ser, requer muita sobriedade e ponderação. Requer sentido de Estado, e, por isso, dispensa permanentes recados naqueles meios de comunicação que, para tal, entendem dever estar disponíveis.

Rui Rio

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