O Jogo ao Vivo

Afonso Camões

Quem pode travar estes cobóis?

Aqui de longe, parece coisa de filme rasca, enquanto se comem tremoços: agarrem-me, senão vou-me a ele! Narcisos e fanfarrões, palitos nos dentes e penteados a pedir caricatura, Kim Jong-un e Donald Trump desafiam-se como dois cobóis. Oxalá, porém, não nos obriguem a recordar 2017 como o ano em que todos vivemos perigosamente. Pode dizer-nos a razão que dali não virá guerra, mas previne-nos o coração que a escalada de agressividade pode conduzir a ela.

Afonso Camões

Isto está que não se aguenta

A nossa economia arriba em quase todos os indicadores, e o aumento das receitas do turismo é, seguramente, um dos pilares mais firmes da atual fase de crescimento. O mercado turístico português cresce acima de 10% (o dobro do espanhol), e 2017 promete ser o melhor ano de sempre para o turismo nacional. A manter-se o ritmo, o contador de visitantes deverá ultrapassar os 21 milhões no final ano, comparando com 19,1 milhões do ano passado. O contributo do turismo para o PIB (à volta de 12%), assim como o impacto no emprego (mais de 40 mil novos postos de trabalho, só este ano) são razões mais que suficientes para valorizarmos o turismo como fator de criação de riqueza que deve ser cuidado e respeitado, para que os efeitos positivos sejam sustentáveis e duradouros.

Afonso Camões

Palavra de cabelo em pé

Eu, cada um de nós, poderíamos estar naquela mesma hora e naquele mesmíssimo lugar onde um fanático desvairado acelerou a furgoneta em atropelo assassino sobre a multidão, Ramblas abaixo. Eu, cada um de nós, ou um dos nossos filhos, poderíamos ser um de entre aqueles 13 mortos ou a quase centena de feridos de 35 nacionalidades que se contam em Barcelona. É arrepiante, sequer admiti-lo! Vemos as imagens, ouvimos os testemunhos e, melhor que nós, o poeta diria que "o horror é uma palavra de cabelos em pé, assustada com a própria significação".

Afonso Camões

Armas de distração massiva

Nós aqui ainda envergonhados com o assalto ao paiol de Tancos, quando hoje mesmo, em solo europeu, do Báltico ao mar Negro, muitos milhares de soldados estão envolvidos nas maiores movimentações militares de que há memória desde os tempos da Guerra Fria. De um lado e do outro, NATO e Rússia dizem que os exercícios, que envolvem aviões e navios de guerra, tanques e artilharia pesada, são de natureza defensiva. Mas todo o Mundo percebe que, neste tilintar de esporas, os dois blocos tradicionais só arreganham os dentes para mostrar músculo. São jogos de guerra, e condizem com a crescente pressão americana para que os europeus do bloco atlântico aumentem os seus orçamentos militares. Entre os nossos parceiros, bem podem Espanha, Bélgica, Dinamarca, Holanda e Noruega comprar mais caças de combate, à razão de 120 milhões de euros por cada unidade voadora. E até Portugal, cuja frota de F16 (são 30, mas nunca mais de uma dúzia prontos a descolar) está "em final de vida", há de ter de decidir até 2020.

Afonso Camões

Olha o lince da Malcata!

Sexo sem filhos é uma conquista sexagenária consolidada desde 1954, quando se inventou a pílula. Com as modernas técnicas de fertilização in vitro, o contrário também é possível - filhos sem sexo. O óvulo e o espermatozoide continuam a encontrar-se, como antigamente - mas agora dentro de um tubo de ensaio, no laboratório, o que não tem graça nenhuma comparada com a moda antiga, mas é a única esperança para casais com problemas de fertilidade ou outros que não vêm ao caso.

Afonso Camões

Cair de maduro

Há meio milhão de portugueses de coração nas mãos, num pobre país rico, dono das maiores reservas de petróleo do Mundo mas que, mergulhado no caos político e à beira de uma guerra civil, deixa o seu povo à míngua e à morte. Na Venezuela, cresce a violência nas ruas, degradam-se os indicadores sanitários, reaparecem doenças que estavam erradicadas e alastra a subnutrição. Há fome, sim, não tanto porque escasseiem alimentos, mas porque se quebraram cadeias de distribuição e a inflação atinge ali os 800%. São de portugueses a maioria das 7000 padarias do país, mas é preciso uma mão-cheia de desvalorizados bolívares, a moeda local, para comprar um pão.