Opinião

All you need is love

Quase toda a vida moderna foi construída sobre três quimeras: liberdade, igualdade e fraternidade. Inventaram-nas os alucinados franceses da revolução (1791), que as venderam como tábuas de lei a um mundo a fazer de conta que as leva a sério.

Entre as variantes da trilogia, uma das mais inflamadas reclama a igualdade do género, com as mulheres na primeira linha de um combate antigo. Apenas um exemplo: é bizarro, mas não edificante, que haja uma parte do território da União Europeia cujo acesso lhes esteja vedado. São aqueles 335 quilómetros quadrados de uma região autónoma do Estado grego, na pontinha de uma das suas penínsulas, no Monte Atos, mais a mais, património mundial da UNESCO. Ali, há séculos que mulheres nem vê-las, a não ser a imagem da Virgem. Habitado por 1500 monges, naquele pedaço de Europa governado pela Igreja Ortodoxa só podem entrar homens.

Levado a sério o preceito, tal significa que mais de metade do novo Governo francês está legalmente impedido de lá pôr os pés, nem que seja para rezar. É que, pela primeira vez na sua história, os franceses vão ter mais mulheres que homens à frente do Governo. A nova equipa, apresentada na próxima quarta-feira, integra 19 ministros, onze dos quais são mulheres, a gerir áreas tão importantes como a Defesa, Justiça, Interior e Assuntos Europeus. Este avanço feminino no Governo coincide com idêntico sinal no Parlamento francês, em resultado das eleições legislativas do passado domingo: a nova Assembleia Nacional vai contar com 223 mulheres, num total de 577 lugares. São mais 155 deputadas que na anterior legislatura, o que vale bem dois ou três hinos.

O mérito é delas, mas era uma das promessas do mais jovem presidente francês de sempre, Emmanuel Macron. Quando ele nasceu, já uma das principais composições de John Lennon rasgava fronteiras, depois de a BBC a ter contratado aos Beatles para aquela que foi a primeira transmissão via satélite da história da televisão. A música chegou a mais de 400 milhões de pessoas em todo o Mundo e, não por acaso, porque se tratava de uma emissão internacional, o tema da banda britânica começava com acordes da Marselhesa, o hino nacional francês. Traduzido à letra, o primeiro verso do poema de Lennon decerto inspira Macron: "Não há nada que possas fazer que não possa fazer-se". E porque falo eu disto? Muito simples: "All you need is love" resolve-me o título da crónica e é o mesmo que deu o nome a esse imortal tema dos Beatles, transmitido pela primeira vez em 25 de junho de 1967. Faz hoje 50 anos.

* DIRETOR

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