Opinião

Aprender sem barreiras

Aprender sem barreiras

A propósito do que vou lendo e ouvindo por aí sobre a importância de preservar os manuais escolares, vem-me à memória uma imagem que retive quando visitei o Museu Picasso, em Barcelona: os manuais escolares usados (e guardados) pelo pintor apresentam-se repletos de apontamentos e anotações manuscritas. É um exemplo paradigmático da importância do manual escolar para o percurso educativo dos alunos, para o desenvolvimento das aprendizagens e da própria criatividade, mas também do que deve ser entendido como uma correta utilização deste tipo de recurso didático-pedagógico.

Personalizar o que é nosso é uma necessidade do ser humano. Os livros não são exceção. Sublinhar, anotar e numerar são algumas das muitas formas de personalizar um texto e de nos apropriarmos do seu sentido, tornando-o mais acessível e útil para os nossos projetos e atividades, sejam elas lúdicas ou instrumentais.

Nas nossas estantes, ao abrir um livro, literário ou escolar, muitos são os círculos, os sublinhados, os traços, os pequenos apontamentos, os significados de palavras desconhecidas, as perguntas suscitadas pela leitura e os desenhos ou esquemas que representam sensações, associações de ideias e até o que é explicado em contexto escolar. O uso dos livros sempre fez parte da nossa cultura, ao ponto de os materiais em formato virtual já disponibilizarem essas funções.

Infelizmente, cada vez mais jovens chegam ao Ensino Secundário e até à universidade sem o hábito e a destreza de anotar as suas leituras, de sublinhar os textos e de mobilizar todos os meios que lhes permitam apropriar-se dos materiais escritos com que lidam na escola e mais tarde, profissionalmente ou por simples lazer, fora dela.

Diversos estudos realizados em universidades americanas e europeias demonstram inúmeras vantagens na utilização dos livros escolares e na possibilidade de os usar como ferramenta de estudo e, naturalmente, tomar notas, sublinhar, numerar ou destacar graficamente. Estas técnicas ajudam a melhorar a compreensão de um texto devido ao esforço cognitivo e de atenção que implicam, ajudam a estruturar o pensamento, para além de poderem ser úteis para, no futuro, relembrar mais eficaz e rapidamente os assuntos abordados nas aulas.

A gratuitidade através do empréstimo e subsequente necessidade de devolver os manuais escolares como novos, não permitindo uma utilização plena dos seus recursos, levanta barreiras na aprendizagem e gera constrangimentos no estudo dos alunos. O livro escolar é o meio de aprendizagem por excelência, que permite a qualquer aluno uma abordagem coerente, flexível e eficaz aos programas educativos, que promove uma ligação forte e biunívoca com os professores.

Querer impedir que, durante o estudo, os alunos sublinhem ou tomem notas nos manuais é pedagogicamente contraproducente. Os conhecimentos disponibilizados pela psicologia, pelos inúmeros estudos multidisciplinares internacionais existentes sobre este assunto e todo o saber empírico acumulado por gerações de leitores não devem ser ignorados. A liberdade de escrever nos livros é essencial no processo de aprendizagem, independentemente do ano de escolaridade ou da disciplina em questão.

A reutilização é um propósito bem-intencionado que, no entanto, não deve sobrepor-se ao que é fundamental na Educação: o sucesso educativo e o desenvolvimento, cultural, pessoal e social dos nossos alunos. Querer limitar a utilização plena e livre das ferramentas de aprendizagem é pôr em causa esse desígnio.

DOCENTE UNIVERSITÁRIO

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