Opinião

"É prò menino e prà menina!"

"É prò menino e prà menina!"

Nos últimos dias, dois assuntos, de somenos relevância para alguns, mas que geraram aceso repúdio noutros, e que conduziram a processos inspetivos, estiveram em foco.

Há um ano, a Porto Editora (PE) editou dois livros - o Bloco de Atividades para Rapazes (capa de cor predominante azul) e o Bloco de Atividades para Meninas (capa de cor predominante rosa) -, destinados a crianças dos 4 aos 6 anos, formados por 62 atividades, com resolução de grau de dificuldade semelhante.

A diferenciação do sexo pelas cores passaria despercebida, se não fosse, em "grande parte das atividades", a reprodução de "uma série de velhos estereótipos", na opinião de alguns críticos, merecedora de uma argumentação de duas (!) páginas dos blocos.

A Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género (CIG) recomendou a retirada dos livros do mercado, aceite, de imediato, pela editora livreira. Este organismo público de defesa e promoção da igualdade de género disponibilizou-se para colaborar na "revisão dos conteúdos" de ambos os exemplares, "no sentido de eliminar as mensagens que possam ser promotoras de uma diferenciação e desvalorização do papel das raparigas no espaço público e dos rapazes no espaço privado".

Centrando-me na inusitada problemática, surgem-me, a reboque, múltiplas questões: que medidas seriam aplicadas à PE se não retirasse os livros do mercado? A recomendação em causa é um ato de censura? Os adquirentes destes livros não tinham o direito de os comprar? Devem ser responsabilizados por, supostamente, serem cúmplices da violação de "uma educação para a igualdade de género, para a não discriminação e a cidadania"? É normal a CIG recomendar tão rapidamente? Os colégios que só admitem alunos do mesmo sexo não devem ser igualmente alvo de idêntica recomendação? A CIG recomendou, ou irá passar a recomendar, a cor das roupas para crianças? A CIG recomendou, ou irá recomendar, algo para combater as "assimetrias salariais" entre homens e mulheres? A disponibilização da CIG para colaborar na "revisão dos conteúdos" dos dois livros não pode ser interpretada como tentativa de intromissão grosseira numa atividade de índole privada? Assim sendo, não estará a "projetar uma imagem" da oferta de um "lápis azul"? A CIG irá fazer passar a pente fino todos os manuais/blocos/livros de fichas?

A PE - a quem teço nota elogiosa pelo apoio válido que disponibiliza no plano cultural (literário) e, de forma excecional, à educação, ao fomentar o desenvolvimento de conhecimentos, bem como a estimulação de competências essenciais, a partir da primeira infância - tomou uma atitude apaziguadora dos ânimos; tendo sido levada a refletir sobre uma situação, que, na sua essência, não foi equacionada com intenção de ofender, seguramente, dará uma resposta positiva, sem mais.

Relativamente ao segundo caso, manifesto a minha discordância pelo exagero da punição do árbitro Jorge Sousa por algo que não deveria ter proferido, palavras que em todos os jogos, indubitavelmente, escuta, incomparavelmente mais gravosas, injuriosa e ameaçadoramente arremessadas por jogadores, dirigentes, público, entre outros, conduzindo a um processo invulgarmente célere, desencadeado, pela primeira vez, por uma ânsia desmesurada de castigar para dar o exemplo. Que exemplo pretende dar a entidade castigadora (Conselho de Disciplina da FPF), quando adota práticas de prazos bipolares nas suas decisões?

Duas situações diferentes, mas que me levam a formular três perguntas comuns: a quem importa punir os grandes valores da sociedade portuguesa com este excesso de zelo? O que pretendem transmitir? A que se deveu a celeridade anormal das decisões? Há males que vêm por bem e tanto a Porto Editora como o árbitro (curiosamente, ambos do Norte...) saem por cima destes "fait divers" mais reconhecidos e admirados, pois ressalta o sentimento de profunda injustiça.

As entidades recomendadora e punidora devem tirar ilações sobre as suas a(tua)ções. De futuro, os portugueses estarão mais atentos à (des)igualdade dos procedimentos...

* PROFESSOR/DIRETOR

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