Opinião

Fátima mais além da fé

Fátima mais além da fé

A abordagem multidisciplinar dos fenómenos ocorridos no decurso das "aparições" marianas da Cova da Iria apenas começou no início deste século, em 2001, com o MARIAN - Marian Apparitions Research International Academic Network Projet -, coordenado a partir do Centro Transdisciplinar de Estudos da Consciência (CTEC), da Universidade Fernando Pessoa. Desde então, algumas dezenas de investigadores, nacionais e estrangeiros, de áreas disciplinares diversas, juntaram-se numa troca de informação informal e dinâmica, de debate e tratamento de hipóteses, sem paralelo na história desta fenomenologia (para)religiosa.

Este esforço, em contínuo desenvolvimento, passa por ser apenas o levantar do véu sobre um tópico que tem sido praticamente "monopolizado" pelas leituras religiosas e teológicas preconizadas e interpretadas pelo Catolicismo, à exceção de incursões de feição antropológica e sociológica, em crescendo na esfera académica pluriconfessional.

Os devotos da religiosidade popular têm todo o direito de manifestar as suas crenças e expectativas, que recuperam, afinal, um património imaterial e um fundo cultural ancestral da nossa matriz genética enquanto comunidade e mantêm vivas e persistentes as expressões de um pensamento mágico e da sua estrutura mítica profunda.

Essa reserva de fundo cultural não esgota, todavia, outros problemas que se desenham no painel das manifestações objetivas de 1917: por exemplo, hipóteses do foro das neurociências, por exemplo, ou da física, como é o caso dos efeitos em 13 de outubro e dos "zumbidos" registados no interior da cabeça dos presentes mais próximos da azinheira do "contacto".

Este núcleo de questões, que escapam ao foro religioso, constitui um dos mais fascinantes núcleos de toda a "fenomenologia humana extraordinária". Por isso, a leitura "mariana" tradicional foi-se impondo e resiste ainda hoje como regente exclusiva dos episódios da Cova da Iria. Tal sistema de crenças, herdeiro direto de uma conjuntura mental e cultural de longa duração, afigura-se-nos hoje simplista e redutor face ao potencial de aspetos, (ainda) não teorizados, sugeridos pela coerência de inúmeros testemunhos diretos da época e que não poderiam antecipar as réplicas futuras de idênticos fenómenos de ordem psicofísica, entre outros, em experiências profanas dos nossos dias. Ou seja, a universalidade dos relatos da Cova da Iria, de 1917, propendem a validá-los como genuínos e extremamente prometedores para explorações científicas atuais em perspetivas múltiplas, que ultrapassam largamente a órbita religiosa-popular.

*HISTORIADOR

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