Opinião

Macron: o socialismo 4.0

Macron: o socialismo 4.0

França, a república mais política da Europa, elegeu Emmanuel Macron, o presidente "não político". Uma vitória anunciada pelo interesse nacional em derrotar o extremo nacionalista. A ironia dos termos não acaba aqui. Foi esta narrativa, politicamente correta, que deu a vitória ao candidato da antipolítica, do programa não político.

Uma quase não campanha de segunda volta, que, de permeio, foi um festim. Uma festa para os comentadores coveiros no velório partidário. A direita moderada do Partido Republicano morreu por autofagismo de Fillon e Sarkozy. A esquerda quase extrema de Mélenchon morreu por indução de um discurso demagógico que, de tão redondo, acabou por tocar na extrema-direita. Ao Partido Socialista Francês, pior do que a morte, foi-lhe decretada a pasokisação. A este cemitério partidário, escaparam Marine Le Pen e Macron. A primeira porque, enquanto associada ao fascismo, por definição, não se constitui em partido mas numa personificação ideológica. Quanto ao segundo, safou-se por não ter partido. Ponto.

As eleições são, efetivamente, uma festa. Mas do povo, não dos comentadores. A vitória de Emmanuel Macron não é fruto de uma narrativa politicamente correta, mediatizada, onde o candidato ganha por ser um mal menor. Na verdade, Macron vence porque tem um projeto que, por profundamente reformista aos olhos da ortodoxia partidária vigente, pode parecer um programa não político. Ilusão, apenas. O que é facto é que os franceses elegeram um projecto político e vincadamente socialista.

Macron deixou de ser ministro de um Governo socialista, mas não deixou de ser socialista. O seu projeto não visa enfraquecer as instituições, Estado social incluído, em detrimento da força do capital. O que está em causa é o fortalecimento das instituições pelo fortalecimento da economia. Uma nova visão da política que não a de um neossocialismo korbynista-sandersista, de esgar sobrevivente no revivalismo de confronto entre o trabalho e o capital, mas antes de um pragmatismo crítico moderno, onde a robustez do Estado social e a qualificação do trabalho assentam numa economia forte, de capital forte.

Do mesmo modo que a Terceira Via adaptou a esquerda socialista aos anos 90, Macron é um político que atualiza o socialismo democrático ao mundo de hoje. A Terceira Via marcou uma era de poder de esquerda, de prosperidade económica, internacionalmente com Blair e Clinton e, em Portugal, com Guterres. Depois da Terceira Via, a direita conservadora voltou e instalou-se. E o Mundo ficou mais desigual. Sem dúvida que é preciso recuperar o socialismo de esquerda democrática para convergir, outra vez, para a igualdade. Mas não com demagogia revivalista marxista. Para os críticos da Terceira Via, a evidência: entre os socialistas Hamon e Macron, o povo francês escolheu o pragmatismo do último.

Não só a França, mas também a Europa fica a ganhar com o novo presidente francês. Desde a passagem à segunda volta, as bolsas valorizaram, a banca valorizou e o euro está mais forte. Prenúncio de que a França pode restabelecer a sua influência na economia global, no sistema financeiro e, mais importante, na estratégia política mundial. Em suma, influenciar o caminho para uma Europa mais próspera e mais igual.

O futuro o dirá, mas arrisco que esta nova geração de socialismo democrático de Macron, pós-Terceira Via, veio para ficar. E ainda bem.

INVESTIGADOR NA UNIV. UPPSALA, SUÉCIA

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