Opinião

Portugal e as novas rotas da seda

Portugal e as novas rotas da seda

Durante mais de 1500 anos, a Rota da Seda constituiu o principal elo de ligação entre o Oriente e a Europa. Ao longo desta rede de mais de 7000 km, floresceram civilizações e promoveram-se intercâmbios comerciais, científicos e culturais sem precedentes.

Com o seu declínio a partir do século XV, perdurou, na consciência de muitos, a ideia de Rota da Seda enquanto espaço de prosperidade partilhada entre o Ocidente e o Oriente. Esta é agora retomada pela Belt & Road Initiative (B&R) - projeto de infraestruturas de mais de três triliões de dólares que visa estreitar as relações entre a Europa e a China através das conexões da Ásia Central, Rússia e Médio Oriente (Silk Road Economic Belt), e das ligações marítimas entre o sul da China, a África e o Mediterrâneo (Maritime Silk Road). Estima-se que a mesma venha a abranger cerca de 65 países e 4,4 mil milhões de pessoas.

Foi com este projeto em mãos que a China acolheu, anteontem e ontem, em Pequim, o Road & Belt Forum - evento de alto nível onde tive a honra de representar Portugal.

Há um conjunto de fatores que permite olhar com otimismo para a nossa participação no B&R.

Primeiro, as excelentes relações existentes entre os dois países, enquadradas, desde 2005, por uma Parceria Estratégica Global. Não somos um desconhecido para a China e o relacionamento dos últimos anos é prova disso. Beneficiámos significativamente da entrada de capitais chineses (3,3% do PIB entre 2011 e 2015) e são cada vez mais os cidadãos daquele país que escolhem visitar ou fixar residência em Portugal.

Segundo, o nosso potencial enquanto plataforma giratória para o comércio entre a Europa, África e até mesmo as Américas. Situados no princípio e no fim das novas rotas das sedas, os nossos portos, nomeadamente o de Sines, adquirem uma renovada importância estratégica, podendo assumir um papel instrumental na consecução desta iniciativa.

Terceiro, a criação de centros de distribuição de produtos de países lusófonos em Tianjin e Cantão, e as várias iniciativas de cooperação alfandegária em curso, que aumentarão o escoamento dos nossos produtos para aquele mercado.

Quarto, a adesão de Portugal ao Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura - medida que proporciona às nossas empresas o acesso a novas oportunidades de negócio e aos capitais necessários para construção de infraestruturas da B&R, em várias geografias.

Por último, o potencial de cooperação entre empresas portuguesas e chinesas em projetos associados à B&R, em África e na Ásia, ao abrigo do Memorando de Entendimento para a cooperação empresarial em países terceiros, recentemente concluído entre os dois governos.

Com esta participação, pretendeu o Governo dar continuidade aos esforços de incremento das exportações, internacionalização de empresas e captação de investimentos para lá dos nossos tradicionais mercados-alvo na OCDE e CPLP. Estes esforços culminaram no reforço das redes diplomática e da AICEP na Ásia-Pacífico - região hoje responsável por cerca de 44% do comércio mundial. Não ignoramos esta nova realidade e as imensas oportunidades que a mesma proporciona às empresas portuguesas.

A B&R representa um dos sinais mais evidentes de que a China pretende assumir um papel de maior liderança na esfera internacional, onde já hoje é um dos pilares na defesa do comércio livre. Apesar de vários altos responsáveis chineses procurarem manter a iniciativa no plano estritamente económico, é impossível ignorar as repercussões desta noutros planos e geografias. O seu sucesso dependerá por isso, em larga medida, do empenho que Pequim evidenciar na coordenação com os restantes parceiros com interesses na região, da abertura que tiver à participação de empresas estrangeiras, da capacidade demonstrada para alavancar os recursos humanos e financeiros necessários, bem como da importância que conferir às dimensões de sustentabilidade ambiental, social e económica.

Estamos confiantes de que este fórum permitirá lançar, em definitivo, as bases de um projeto, que ambicionamos se torne, com o contributo ativo do nosso país, de prosperidade partilhada entre os povos e nações da Europa, Ásia e África.

*SECRETÁRIO DE ESTADO DA INTERNACIONALIZAÇÃO

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