Opinião

Turismo, o tigre da economia (I)

Turismo, o tigre da economia (I)

O turismo é, definitivamente, o novo tigre da economia portuguesa. Depois de anos de contração e retrocesso económico, Portugal encontra-se a crescer de uma forma excecional, de tal forma que deslumbra todos os nossos parceiros europeus. Já somos apontados como uma nova estrela, os criadores de um novo paradigma, e como uma alternativa de referência para as novas políticas que devem ser implementadas na União Europeia.

E como se explica este crescimento? Fortemente devido ao avanço rápido do turismo nos grandes centros onde ele já era uma realidade (Algarve, Lisboa e Madeira), e pela sua emergência em destinos onde antes possuía expressão mais reduzida (Porto, Aveiro, Guimarães, Almeida, Açores, etc.).

Mas o crescimento do turismo encerra dimensões, e um potencial, que vão muito além das suas taxas de crescimento. O que se está a passar em Portugal é um fenómeno de reconstrução e de remontagem de uma nova economia, com fortes impactos a montante e a jusante do setor do turismo. O grande potencial que o turismo encerra ainda não está a ser discutido e é preciso que seja trazido para o topo das nossas agendas. Até agora, conseguimos descobrir um diamante para a economia nacional. Mas o grande segredo está ainda para vir. E das duas uma, ou aproveitamos o grande potencial que o turismo tem, lapidando com inteligência este diamante, ou poderemos transformar o sonho e o milagre económico do turismo num pesadelo que pode delapidar tudo o que já atingimos. E o sino que já se toca a rebate em muitos locais (onde já se reclama devido ao "excesso" de turismo) deve servir para questionar não apenas o "mal" que o turismo pode gerar (óbvio que o turismo pode criar impactos económicos, sociais e ambientais negativos - qualquer manual de introdução ao turismo os aponta nos seus capítulos iniciais), mas para questionar o que é que não está a ser feito em Portugal em termos da sua gestão, do seu planeamento, e das cúpulas políticas que são responsáveis pelos processos de tomada de decisão. Note-se que, até agora, o turismo crescia, mas sem problemas visíveis, e, como tal, a política do turismo tem sido "fácil e sorridente", porque se restringe à organização de campanhas de marketing e promoção, onde a imagem que se passa é sempre naturalmente leve e positiva porque se deve centrar na área da imagem, isto é, na espuma do oceano. Mas agora, estamos na fase da gestão, planeamento e estratégia, em que a atuação passa a deixar de ser apenas "pelo lado da procura", para se centrar no "lado da oferta", isto é, na complexidade da gestão, economia e património do oceano diluído de recursos conexos em que se movimenta o setor. E, nesta fase, denota-se que as organizações e os órgãos de decisão evidenciam claras dificuldades em dar a cara e responder objetivamente sobre o que se passa e como gerir a atual situação.

O grande desafio que se coloca a Portugal é o de acabar com a ideia de que o turismo é um intruso, uma carta fora do baralho, e um obliterador da nossa economia, para passar a vê-lo como alavanca da revolução económica que devemos operar no país, e em que o turismo pode ter uma forte palavra a dizer. O turismo não pode ser entendido como uma alternativa e um competidor. Pelo contrário, deve ser visto como combustível, como fator de mobilização que pode pôr a funcionar e a reajustar a indústria, agricultura, floresta, etc. Que pode revitalizar e qualificar os espaços urbanos, estancar o despovoamento das áreas rurais e do interior, e ser o agente financiador de uma área central para a competitividade do país no futuro: termos qualidade de vida, sermos felizes e sermos mais coesos e fraternos regional e socialmente. O turismo deve vir a ser utilizado como fator de afirmação da lusofonia, marcando no Mundo a nossa identidade cultural e patrimonial, bem como criando novos mercados económicos associados à nossa língua, cultura e património.

Até agora o turismo era uma atividade "fácil" que trazia dinheiro fresco principalmente aos hotéis, restaurantes, transportes e retalho. Mas agora a fasquia subiu, e está bem alta. O novo turismo é mais extensivo e intrusivo, e não se restringe aos resorts, mas está disseminado por todo o espaço e compete com a nossa vida quotidiana e com o nosso local de trabalho. E para novos desafios precisamos, pois, de melhores políticas e uma nova gestão para o setor!

* PROFESSOR CATEDRÁTICO DE TURISMO DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

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