Há solução: redistribuir a riqueza
12.07.2014
Manuel Tavares

O BES viveu no centro de um vulcão bolsista que a dimensão de Portugal e do seu mercado bancário não justificariam em tempos de normalidade. Mas é de dias incertos que vivemos, nós, a Europa e, feitas as contas, todo o mundo capitalista. Eis o que, em boa medida, explica que um problema com um banco português fosse suscetível de ser considerado tão contagioso e logo para tantos mercados bolsistas. Outra parte da explicação residirá na ainda fresca libertação do jugo da troika, conseguida há apenas cerca de um mês.

Como parece ter ficado claro na garantia dada pelo governador do Banco de Portugal, podem os depositantes do BES dormir descansados. E isso bastou para que o banco, os outros bancos e a Bolsa reagissem positivamente e a exagerada sensação de contágio deixasse de vaguear pelas praças europeias.

Mas não há que iludir: o vulcão existiu mesmo.

Em primeiro lugar, existiu porque para os mercados tardou o aclaramento de que o problema do Grupo Espírito Santo não era de molde a afetar a solvabilidade do banco, incluindo o detalhe não despiciendo de uma almofada de dois mil milhões de euros constituída como garantia.

Em segundo lugar, existiu porque para os mercados ainda não estava claro que o setor bancário português tivesse feito (e bem) todo o trabalho de casa na conclusão do programa de assistência financeira patrocinado pela troika.

Aclaradas ambas as questões e encontradas as razões da erupção vulcânica, podem, pois, os aforradores com depósitos no BES ter um fim de semana mais descansado. Exceto os crentes na prevalência da justiça social e da igualdade de oportunidades como modo de vida a atingir.

Em boa verdade, os últimos números conhecidos sobre a repartição da riqueza renegam essas duas ideias básicas do mundo civilizado e, mais ainda, dos regimes democráticos de que a Europa foi pioneira e vanguarda.

Desses grandes números, devemos reter, desde logo, o que mais dará que pensar e... trabalhar: metade da riqueza produzida está nas mãos de apenas um por cento da população mundial!

Mas há mais, muito mais: metade da população considerada em estado de pobreza, cerca de quatro mil milhões de almas, detém a mesma riqueza que as 85 pessoas mais ricas. E só na Europa, os 10 mais ricos somam 217 mil milhões, ou seja, 1,3 por cento da riqueza mundial.

Por fim, comparando o incomparável: a população que sobrevive com menos de 10 dólares representa 69 por cento da população mundial e três por cento da riqueza total produzida, enquanto 0,7 por cento da população vive com mais de um milhão de dólares e detém 41 por cento da riqueza produzida no Mundo.

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Maria Glória Ribeiro
foto Miguel Pereira/Global Imagens

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