Vida nova
30.12.2014
Alberto Castro

Como se previa, falhou a terceira, e última, tentativa para eleger o presidente grego. Haverá eleições antecipadas, das quais o Siryza pode emergir vencedor. As sondagens anunciam-no há já algum tempo, ainda que a Nova Democracia tenha vindo a recuperar terreno.

Todas as hipóteses estão em aberto mas o mais provável é que a Grécia se encaminhe para uma situação de ingovernabilidade, sem qualquer partido capaz de constituir um governo maioritário, o que conduziria à convocação de novas eleições. Não se sabe, nunca se sabe, quais as reacções de mercados, instituições e investidores a esta mais do que provável crise e em que medida a mesma terá repercussões sobre países terceiros. No passado teve. Hoje está a ter. E amanhã?

Assim acaba 2014. Assim começará 2015. O problema não está só na anunciada crise grega mas na forma como, ao que parece, a mesma estará a ser encarada pelas instituições europeias. Os burocratas lá enquistados reagiram com o cinismo tecnocrático de quem desenhou soluções perfeitas nas quais o povo é apenas mais uma variável e a democracia não entra. Só assim se compreende que se admita a eventual saída da Grécia do Euro quase com um encolher de ombros: é um pequeno país; uns "troublemakers"; com os novos mecanismos de estabilidade financeira pouco dano poderão causar ao sistema; eles que se amanhem. Por excepção, percebe-se que, isoladamente, apenas a Espanha e a Itália os poderiam preocupar: países grandes, cujas decisões teriam um impacto desestruturador, mesmo perante todas as melhorias introduzidas.

São também, ou sobretudo, este tipo de organizações, políticas, agentes e comportamentos que fazem de 2015 uma grande incógnita. Nunca tantos artigos internacionais usaram a expressão "make or break" no título, desde a União Europeia ao Japão, passando pela Rússia. Talvez seja um exagero. Talvez não. Prognósticos, só no fim do jogo.

No meio de toda esta turbulência, com a deflação e a estagnação como pano de fundo, o que podemos fazer? Com interlocutores dogmaticamente fechados nas suas posições, seria importante (foi sempre importante) apresentarmo-nos com posições concertadas entre os principais partidos e parceiros sociais. Com as posições partidárias cristalizadas, e as eleições omnipresentes, 2015 arrisca-se a ser mais um ano perdido. A gota de água que faz transbordar o copo?

Pessimismo a mais, dirão muitos. Afinal em 2015 vamos crescer. A descida do preço do petróleo e os juros baixos ajudarão. Tal como os novos fundos estruturais. Há o reverso da medalha: a diminuição da procura em países produtores de petróleo, mercados importantes para nós, como Angola ou, em certos sectores, a Rússia; ou a manutenção de perspectivas pouco animadoras sobre a evolução económica na Europa, ainda e sempre o nosso principal mercado. São contrapontos importantes. Não essenciais. O nosso maior risco é a complacência. Habituados a não crescer, satisfaz-nos um crescimento anémico, desde que acima da média, como se o mal dos outros fizesse de nós bons. Percorremos um caminho. Fizeram-se algumas reformas. Suportámos estoicamente sacrifícios, mesmo sem percebermos exactamente para quê. Muito continua a depender de nós. Outro tanto do que se conseguir na frente externa. Paulo Trigo Pereira fez as contas: mesmo cenários muito dificéis de alcançar não libertam meios suficientes para a mudança necessária. O que torna ainda mais crítico o uso racional de todos os recursos. E uma estratégia partilhada. "Make or break"?

P.S. Decidi aceitar o desafio de presidir à Instituição Financeira para o Desenvolvimento. Talvez possa ajudar. A ocupação (não-executivo) não impediria a continuidade da minha colaboração. Já a natureza embrionária do projecto não se compadece com eventuais polémicas que pudessem resultar destes escritos. Decidi, por isso, suspender esta coluna "ameaçando", se me quiserem, regressar pontualmente. Aos directores do JN com quem privei, e a todos os seus colaboradores, os meus agradecimentos pela forma como me acolheram e apoiaram. Aos leitores, em particular aos que se deram ao trabalho de comentar estes escritos, a minha gratidão. Até sempre!

PROFESSOR UNIVERSITÁRIO

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