Opinião

O privado em público

As revistas cor-de-rosa têm na vida privada daqueles a quem conferem alguma notoriedade mediática o eixo estruturante das suas publicações. Umas vezes, puxam até ao espaço público pedaços de uma intimidade de forma completamente ilegítima; outras, mostram aquilo que há muito deixou de ser um direito à vida privada. Ora, se quem sempre se resguarda merece respeito, quem vive a sua privacidade em público não pode impor limites ao que se publica.

Em agosto de 2001, numas interessantes conferências sobre públicos realizadas no Convento da Arrábida, conversei demoradamente com a socióloga francesa Dominique Mehl a propósito dos limites daquilo que se pode publicitar. Defendia na altura a conceituada investigadora que a intimidade não assumiria contornos imutáveis. Pelo contrário, o espaço íntimo seria algo definido por cada indivíduo e não por uma autoridade social, política, jurídica ou religiosa. Cada um teria o direito a fixar o que reserva para si próprio, o que guarda no espaço privado e o que mostra aos outros através da esfera pública. Isto significa que o privado se define na sua relação com a cena pública através da dicotomia visibilidade/invisibilidade. Por estes dias, lembrei-me muito destes ensinamentos, ao acompanhar algumas capas das principais revistas sociais que se publicam em Portugal.

Devo assumir que olhei com muita indignação para fotografias tiradas sem consentimento que mostravam uma conhecida atriz na praia, ao lado dos seus filhos menores, enquadradas por textos que anunciavam um provável divórcio do marido. Para lá do lado abusivo dos ângulos fixados por lentes que invadiram sem cerimónia a intimidade daquela família, as imagens vaticinavam uma separação daquele que outrora teria sido um casal modelo do jet set português, sem que houvesse qualquer declaração dos envolvidos nesse sentido ou de qualquer outra fonte identificada. Passados uns dias, a mesma atriz, com os seus filhos menores, e já ao lado do seu marido, deixava-se fotografar em pleno areal algarvio para outra revista cor-de-rosa. Fiquei muito desiludida com esta opção de exibir assim o privado em público. Face àquelas imagens que se multiplicavam por várias páginas ancorando um texto onde se falava de uma vida familiar harmoniosa, as interrogações eram inevitáveis: como condenar a publicação das primeiras fotografias? Que espaço haverá aqui para defender o direito à privacidade, quando se ostenta assim o íntimo numa espécie de não-lugar povoado de anónimos?

Outrora com linhas demarcadas, público e privado foram-se progressivamente aproximando um do outro, apresentando agora linhas de separação cada vez mais flutuantes. Neste contexto, é preciso reconhecer que essa dilatação de fronteiras em que o privado avança vertiginosamente em direção ao público é, na maior parte das vezes, promovida por cada um de nós. Talvez fosse bom regressar à leitura da obra "Tiranias da intimidade", de Richard Sennett, para repensar melhor algumas das nossas práticas sociais.

Por estes dias, muitos abrem na sua agenda uma pausa para férias. Que se quer que seja um tempo disruptivo em relação à azáfama em que mergulhámos no resto do ano. No entanto, muitos sentem alguma dificuldade em se desviarem do olhar público. E lá continuam agarrados permanentemente a ecrãs periféricos. Ora para publicarem pedaços de uma vida que deveria permanecer protegida de olhares profanos, ora para se inteirarem daquilo que fazem pessoas que mal conhecem. É paradoxal esta sociedade tão obcecada pela comunicação e tão esquecida do modo como se criam verdadeiros laços sociais. Laços que perduram para lá de imagens efémeras e completamente dispensáveis.

Não será, decerto, possível reverter esta evolução que o domínio privado tem feito em direção à esfera pública. Mas seria aconselhável refletir um pouco acerca das fronteiras que vamos dilatando, frequentemente de forma tão imponderada.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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