O Jogo ao Vivo

Opinião

Ondas noticiosas

Os media noticiosos constroem, em certas alturas, uma agenda centrada em determinados assuntos. Ora porque o real que mediatizam é de tal forma avassalador que impõe um forte acompanhamento jornalístico, ora porque as próprias redações, atuando numa lógica circular de informação, vão fazendo uma construção social da realidade que estrutura aquilo de que se fala. Mas os problemas não se circunscrevem a isso. Aquilo que se constata é que os jornalistas convivem mal com duas ondas noticiosas, passando frequentemente de assunto em assunto, sem haver qualquer desfecho de nenhum deles.

Os media cobrem eventos por continuidade (campanhas eleitorais, campeonatos de futebol...), por rotina (debates parlamentares, por exemplo) ou, então, seguem acontecimentos disruptivos (catástrofes, crimes...). Quando estes últimos têm grande impacto, sobretudo político e emocional, tendem a permanecer vários dias no topo da atualidade formando uma onda noticiosa que se caracteriza por uma cobertura intensiva e destacada, que deveria atingir o seu clímax num ponto importante daquilo que acontece. Ora, nem sempre é assim, porque muitas vezes as redações soltam-se inesperadamente desse acompanhamento e isso ocorre sempre que há dois acontecimentos hegemónicos. Um deles perde fôlego. Por regra, o que está na agenda há mais tempo. Consequência: em determinadas alturas, centramos uma atenção excessiva num assunto e, de repente, saltamos para outro com idêntica concentração, esquecendo depressa factos anteriores que vão também sendo arredados de uma agenda pública que deveria procurar soluções para os problemas.

Nas últimas semanas, vivemos consternados com Pedrógão Grande. De repente, o alinhamento dos media desviou-se para Tancos e sentimo-nos atemorizados. Rapidamente, os ministros com tutelas nestas áreas ficaram no centro de uma arena política-mediática que exigia que se sacrificassem cargos. Chegado de férias, o primeiro-ministro tratou de esvaziar estes casos dos seus traços mais polémicos, evidenciando em público modos de resolução para o sucedido. O debate do Estado da Nação correu bem a António Costa e ontem o anúncio de novos governantes criou outro "frame" noticioso no campo político. As ondas noticiosas perderam vigor e as férias de verão atenuarão essa tendência. Será difícil voltar a Tancos com grande intensidade noticiosa e seria também inverosímil colocar Pedrógão Grande na abertura dos noticiários, não fosse a promessa do presidente da República de lá passar o Natal. Assim, em dezembro, haveremos de lá regressar, decerto com algum destaque, porque, em tempo natalício, as redações ficam sem agenda noticiosa que lhes encha os noticiários.

Estes casos não são exemplos isolados. Correspondem, antes, a uma tendência, que, por cá, se exacerba. Por exemplo, lembram-se no caso da legionela que atingiu Portugal em novembro de 2014? Foi o terceiro maior surto registado a nível mundial, classificado pela Organização Mundial de Saúde como "uma grande emergência de saúde pública". Fez 12 vítimas mortais e provocou o internamento a 375 pessoas. Durante vários dias, o assunto abriu noticiários e preencheu capas de jornais. Apesar de grave, a doença do legionário saiu rapidamente do topo dos alinhamentos noticiosos, cedendo lugar a dois escândalos políticos: o primeiro relacionado com os vistos Gold e o segundo ligado à detenção e prisão do ex-primeiro-ministro José Sócrates. Depressa o surto caiu numa estranha espiral do silêncio. Até hoje.

Claro que os media noticiosos não podem fazer um acompanhamento exaustivo daquilo que vai sendo noticiado, mas o abandono repentino de casos que tanta noticiabilidade produziram sem deles haver qualquer desfecho não contribui para a construção de uma democracia mais consolidada. Em vez de procurarem resolver problemas, os atores com responsabilidades públicas, principalmente os políticos, preocupam-se, acima de tudo, em sair ilesos de ondas noticiosas onde, num certo tempo, estiveram a esbracejar para sobreviver. Porque todos sabem que haverá de chegar outra onda que neutralizará todo o impacto da anterior.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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