Opinião

Os média escolhem Macron

Os média escolhem Macron

Os jornalistas franceses não querem Marine Le Pen no Eliseu. Alguns declaram-no abertamente em musculados artigos de opinião contra a candidata da Frente Nacional. Todavia, a estratégia de promoção de Emmanuel Macron faz-se através da seleção das notícias, dos ângulos noticiosos e dos comentadores escolhidos.

A permanente apologia do candidato do movimento Em Marcha não apaga a sua adversária do espaço público mediático. Ela está omnipresente. Quase sempre em discursos que a apresentam como perdedora. E isso tem efeitos junto dos cidadãos. Que podem não ser negativos.

Terça-feira não foi um bom dia para Emmanuel Macron, mas isso não se refletiu muito nos média franceses. Perante a aparição-surpresa de Marine Le Pen na fábrica Whirlpool, em Amiens, onde os trabalhadores estavam em greve por causa do anúncio da deslocalização desta unidade para a Polónia, Macron, que naquele momento se reunia com os sindicatos numa sala de ambiente controlado, foi obrigado a ir para o terreno, algo que a sua candidatura queria evitar. E aí, ao contrário do que aconteceu com a sua rival, foi mal recebido por operários que não pouparam nos apupos. Todavia, quem ontem olhasse para as primeiras páginas dos principais jornais franceses não via aí reflexo desses incidentes. "A guerra está declarada", titulava o "Libération" no meio de fotografias com dois sorridentes candidatos ao lado dos trabalhadores. "Le Figaro" optava pelo título "Macron-Le Pen: cruzamento movimentado em Amiens" e por imagens limpas de qualquer tumulto.

É certo que o jornalismo se faz de opções, fruto de uma seleção sempre discutível. O chamado "processo de gatekeeping" abre canais a determinados tópicos e ergue barreiras a outros. Ora, no campo jornalístico, esse trabalho deve ser feito em obediência a valores-notícia, a linhas editoriais ou a incontroláveis constrangimentos (de tempo, de espaço, de recursos...). Apenas não se admite que se ajoelhe perante certos interesses (políticos, económicos, ideológicos...), mas, por vezes, é isso que acontece, recorrendo-se a sofisticados modos de edição noticiosa: puxa-se por um assunto para a primeira página com uma imagem de ângulo favorável, abre-se o alinhamento com determinado protagonista em ambientes positivos, escolhem-se comentadores mais sintonizados com certos pontos de vista...

Veja-se a capa das principais revistas francesas desta semana. "L"Express" optou por uma fotografia de um eufórico Macron, de braços abertos, sob o título "Ele ganhou". "L"OBS" divide a capa com duas fotos: uma de um confiante Macron, sob um fundo branco; e outra de uma despenteada Le Pen, sob um fundo preto. No interior da publicação, o diretor escreve sobre "os desafios de Macron" e os primeiros textos noticiosos intitulam-se "uma nova era", "como Macron dinamitou o Partido Socialista", "15 dias para se tornar presidente", todos com imagens de um triunfante candidato. Só depois, surge um artigo intitulado "Le Pen, a força de uma pária", acompanhado de uma foto onde se vê Marine em fundo, sob o olhar desconfiado de um segurança fechado num preto que assusta. A forma é conteúdo e aqui a mensagem latente é fácil de descodificar. Mas será que atingirá os efeitos pretendidos?

Outra das opções seguidas nas redações é a desconstrução dos discursos, nomeadamente daquele que Marine Le Pen vai assumindo. Na terça-feira, a candidata foi entrevistada na TF1, tendo dirigido duras críticas ao envolvimento da França na União Europeia. O jornal "Le Monde" retomou aquelas que considerou "afirmações falsas", apresentando dados oficias que contrariavam o que foi dito.

Confesso a minha repulsa a sofisticados processos de produção noticiosa que, sob o manto da imparcialidade e da precisão, procuram passar mensagens subliminares que orientem comportamentos. Por norma, os cidadãos percebem bem essa manipulação e tendem a reagir em sentido contrário daquele pretendido. Nestas eleições francesas, seria melhor noticiar com rigor o que os dois candidatos fazem e desconstruir exaustivamente as respetivas propostas, circunscrevendo a defesa de cada um aos espaços de opinião. De forma clara, transparente e com os argumentos que se impõem. É disso que os franceses precisam. Hoje mais do que nunca.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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