Opinião

Os média serão antipoder?

Os média serão antipoder?

Para aqueles que olham os média como lugar privilegiado para monitorizar os diferentes campos sociais, ouvir falar do espaço mediático como antipoder é, decerto, surpreendente. Todavia, esta é uma tese que vai fazendo o seu caminho. Perverso, deve reconhecer-se.

Numa edição dedicada aos privilégios dos políticos, a revista francesa "L"Express" entrevista, esta semana, o filósofo Marcel Gauchet, que é também um dos principais editores da prestigiada revista "Le Débat". Falando pormenorizadamente do escândalo que envolve o candidato de Direita às eleições presidenciais francesas, Gauchet defende que os média deixaram hoje de ser contrapoder para se constituírem como antipoder, ou seja, como meios que impedem sistematicamente o exercício do poder. Sente-se uma certa condenação ao agendamento jornalístico à volta do caso que está a condicionar a campanha eleitoral em França. Recorde-se que François Fillon foi acusado de ter contratado a mulher e os filhos para o assessorem ao longo de vários anos, auferindo, por isso, substanciais remunerações, sem, no entanto, haver registos físicos desse trabalho. Fillon já pediu publicamente desculpa por essas contratações, embora em momento algum tenha demonstrado disponibilidade para devolver os milhares de euros recebidos do erário público. Marcel Gauchet vem agora lembrar que Fillon não será um caso isolado no aproveitamento ilícito de dinheiro público, sublinhando que os média podem ser "idiotas úteis" numa conjuntura de manipulação política.

Este caso, que rebentou nas páginas do jornal satírico "Canard Enchainé" conhecido por divulgar inúmeros escândalos políticos, foi certamente conduzido por fontes empenhadas em destruir a candidatura de François Fillon. Há quem aponte o nome do seu rival Nicolas Sarkozy como um dos possíveis interessados em aniquilar o candidato de Os Republicanos. É hipótese. Emmanuel Macron será outra, assim como o Partido Socialista... Todavia, esta é apenas uma pequena parte daquilo que importa discutir, porque a centralidade deste debate é o modo como um político terá aproveitado dinheiro público para benefício seu e da sua família. E é exatamente isso que os média vêm noticiando nas últimas semanas.

É verdade que a noticiabilidade não é inócua. De candidato praticamente certo no Eliseu, Fillon transformou-se numa improbabilidade que muitos gostariam de apagar deste escrutínio eleitoral. No seu partido, houve movimentações para o expulsarem da corrida, embora todas as tentativas tenham sido infrutíferas, porque ninguém conseguiu desenhar um plano B para este cataclismo. Todavia, estes efeitos da comunicação mediática não podem, de forma alguma, amedrontar os jornalistas, nem tão pouco consubstanciar teses que culpabilizam os média por uma crise que, subitamente, se abriu em determinado campo político. Os culpados aqui são os políticos. Não os jornalistas.

Numa capa bem oportuna, "L"Obs" apresenta, esta semana, François Fillon no corpo de Tartuffe, o falso devoto da célebre peça de Molière que procurou enganar tudo e todos. E eis como o jornalismo pode, através das imagens, dizer muito. Os mais puristas talvez vejam nesta opção editorial um julgamento excessivamente crítico do candidato de Direita, mas, mesmo correndo o risco de fazer entrar o jornalismo por alguma interpretação mais excessiva, prefiro esta capa à da revista "L"Express" que, esta semana, destaca "os privilégios dos eleitos". No interior, um extenso dossiê onde se enumeram os exagerados benefícios da classe política no poder. No fim, quase que seríamos tentados a desculpar os contratos que Fillon permitiu que o Estado assinasse com a mulher e os filhos... Ora, esse jornalismo dissimulado deve merecer o nosso repúdio. Porque é sofisticado na forma e perigoso nos fins.

Pela minha parte, prefiro afastar-me das teses que olham o jornalismo como um contrapoder, um antipoder ou, até mesmo, um quarto poder. O jornalismo é o exercício de dizer o que se passa de mais relevante. Com clareza, rigor e respeito pelas leis. Tudo o resto, são entropias.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO

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