Opinião

Ouvir os franceses

Faltam dois dias para a primeira volta das eleições francesas. Qualquer que seja o resultado, há uma nova França política que se desenha num relacionamento com a Europa cada vez mais periclitante. Depois do Brexit, o hexágono pode colocar a União Europeia perante um abismo sem retorno. Razões? Oiçam os cidadãos.

Nas últimas semanas, os média deram amplo destaque aos candidatos que disputam o Eliseu. Conhecemos as suas propostas políticas e as tramas que as respetivas vidas pessoais foram urdindo. Acompanhámos o caso dos empregos fictícios no Estado que François Fillon terá eventualmente reservado para a mulher e para os filhos. Assistimos à acusação de Marine Le Pen quanto a uma possível gestão ilícita de dinheiros públicos na contratação de membros da Frente Nacional para o Parlamento Europeu onde a candidata de extrema-direita é deputada. Testemunhámos os boatos em torno da vida afetiva de Emmanuel Macron e presenciamos a progressiva popularidade de um Jean-Luc Mélenchon aparentemente sem grandes segredos íntimos. E eis como a vida privada se foi misturando com os programas políticos que as inúmeras ações de campanha procuraram apresentar da forma mais atrativa possível.

Do grupo de 11 candidatos que disputará, no domingo, a primeira volta desta corrida, destacam-se precisamente estes quatro: Macron, Le Pen, Fillon e Mélenchon. Cada um deles reunirá virtudes, mas apresentam igualmente sérios constrangimentos. Nos palcos mediáticos, as opiniões dividem-se, mas editorialmente sobressai um bloco coeso que se opõe com músculo à proposta da Frente Nacional. No entanto, como o passado recente amplamente documenta, a opinião publicada poderá ser muito diferente daquela que manifestará o cidadão comum nas urnas. E essa será sempre a que mais ordena.

Por estes dias, percorro os média à procura de "frames" que se constituam como chaves de leitura que ajudem a perceber melhor o atual contexto francês. Asfixiados por pseudoacontecimentos que as máquinas partidárias vão preparando ("L"OBS" escrevia ontem que Macron promove mais de mil eventos locais por dia!), os jornalistas vão relatando, como podem, aquilo que cada candidato faz. É pouco para compreender o que está em causa. Falta o sentir dos franceses. É da ordem do pensamento do ventre aquilo de que necessitamos para interpretar melhor estes dias. Por isso, prestei particular atenção a dois artigos publicados na edição desta semana do "Courrier Internacional".

Sob o título "Em Charroux, o orgulho ferido dos condenados da terra", a reportagem, elaborada por um consórcio de jornalistas dos jornais "Le Soir", "La Tribune de Genève", "Die Welt" e "La Repubblica", expõe as condições difíceis em que vivem hoje os agricultores franceses. O texto sublinha que, no ano passado, suicidaram-se 732 agricultores. "Um genocídio", atira Dominique Pipet, um dos que sobrevivem a custo do trabalho da terra. Outro lembra que o Governo tem desinvestido enormemente no sector agrícola. Esse enfraquecimento, sublinha, ajuda a ler a desertificação progressiva dos pequenos aglomerados. E a crescente revolta que esta gente sente face a um sistema político cada vez mais anestesiado em relação a estes problemas da vida de todos os dias, poder-se-ia acrescentar.

Uma outra reportagem, publicada no jornal "The New York Times", foi procurar o sentir dos sindicalistas e operários de Pas-de-Calais, "o símbolo do declínio industrial", como se escreve. Protesta-se com vigor contra a Lei do Trabalho, criada pelo Governo socialista do presidente François Hollande e reconhece-se que os partidos de Esquerda já não constituem qualquer almofada de proteção para a desprotegida população. E é no meio deste descontentamento que ganham força as posições de Marine Le Pen, encarada aqui como a defensora de uma classe trabalhadora cada vez mais desamparada.

As últimas sondagens não têm sido claras nos dois nomes que passarão à segunda volta. Portanto, tudo está em aberto. No domingo, importaria que os comentadores procurassem ler os resultados não apenas à luz daquilo que foram as propostas de cada candidato, mas tendo em conta esta camada de franceses que fica cada vez mais na borda das políticas governamentais. E que se manifesta depois nas urnas. Ruidosamente.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

Recomendadas

Conteúdo Patrocinado

Outros conteúdos GM