Opinião

Brincar com o fogo

Em 1986, no auge da luta eleitoral que opôs Mário Soares a Freitas do Amaral, o país ouviu Álvaro Cunhal recomendar aos militantes comunistas que votassem Soares no segundo turno. Para os que tivessem maior relutância em fazê-lo, conhecida a aversão tida a Soares por muita gente desse setor, o líder do PCP recomendava que "tapassem com a mão" a sua fotografia, quando colocassem a cruz no boletim de voto

Freitas do Amaral não era um fascista, não era de extrema-direita, embora não houvesse nenhum saudoso do "ancien régime" em Portugal que não se tivesse acolhido à sombra do candidato dos "loden" e dos palhinhas, o que assustava muita gente, a começar pelo autor deste texto. Mas foi assim que o "povo de Esquerda" (bela expressão de António Barreto, pedida de empréstimo a Mitterrand) conseguiu colocar Soares em Belém, por uma década.

Le Pen está muito próxima de Trump, esse sim, portador de uma agenda claramente de extrema-direita - designação que, se acaso fosse europeu, há muito a Imprensa já lhe teria colado à pele. E, no entanto, sendo ela indiscutivelmente muito mais perigosa do que Freitas do Amaral era em 1986, há, pelos vistos, quem não veja as coisas dessa forma, equivalendo-a a candidatos indiscutivelmente mais inócuos. E isto ocorre na mesma França que, em 2002, se mobilizou massivamente por Jacques Chirac contra o pai Le Pen, cuja agenda programática não era substancialmente muito diferente.

Por isso, ouvir um homem com um passado de Esquerda, como Jean-Luc Mélenchon, na sua intervenção no final da primeira volta, afirmar que não ia dar uma indicação imediata de voto ao expressivo número dos que nele confiaram, optando entre os dois candidatos apurados para o escrutínio final, um dos quais de extrema-direita, foi, a grande distância, o que mais me impressionou naquela noite.

O "defeito" é, com certeza, meu: ainda vivia num Mundo que se havia habituado à regra "republicana" de que, contra um candidato de extrema-direita, o voto era "cego" em quem quer que se lhe opusesse. E isso, afinal, acabou. Até nalguma Esquerda.

É claro que, em 2012, já se assistira ao famoso "ni-ni" - nem Front National, nem socialistas - lançado por Sarkozy, antes da segunda volta das eleições legislativas. Curiosamente, Fillon não o seguiu, nem nessa altura nem nestas eleições, em que logo afirmou que era necessário votar em Macron. Porém, Sarkozy e a "nomenklatura" do "Les Républicains" o máximo que conseguiram ir foi apelar a um voto "contra Marine Le Pen". A Direita francesa parece ter iniciado uma deriva sem retorno para as profundezas radicais. Mas a Esquerda populista, talvez numa inconsciente procura do "quanto pior melhor", não lhe fica atrás. Estão a brincar com o fogo. E podemo-nos queimar todos.

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