Opinião

António Costa e os índios do Paraguai

António Costa e os índios do Paraguai

No "Expresso" da semana passada Pedro Mexia assinava um texto a propósito da reedição do livro "Os filhos de Saturno", de António José Saraiva. O livro é de 1980 e recolhe "escritos sobre o tempo" que então passava - entre a Revolução, o PREC e o primeiro período pós-constitucional - mas pode perfeitamente ser lido hoje à luz daquilo que Mexia designa como a defesa das liberdades públicas em qualquer circunstância.

Não teve grande repercussão, salvo nas "redes sociais", a notícia dada pelo receptor de uma sms que relatava o teor dessa sms e desvendava o seu autor. Tanto mais quando o receptor era um director-adjunto de um jornal e o autor um candidato a primeiro-ministro. Independentemente do que lá se dizia, importa ressalvar que ambos, no quadro das liberdades públicas supostamente em vigor há 41 anos, têm pleno direito a exprimir-se sob a forma que melhor entenderem. Chama-se a isto liberdade de expressão já que as duas mensagens eram de carácter opinativo, a crónica do jornalista e a "resposta" sucinta que lhe foi transmitida.

De alguma forma o que se passou é um mero reflexo do que tem dado a crescente promiscuidade entre a acção política e a acção comunicacional. O "namoro" corre razoavelmente até ao momento em que o jornalista não diz, ou não diz bem, aquilo que o político estava habituado a ler e a ouvir ou, no limite, aquilo que queria ler e ouvir. E aí o político tende a reagir com um excesso "que pouco tem a ver com o que aconteceu mas com a forma como vem relatado" (socorro-me de José Pacheco Pereira em "O nome e a coisa", de 1997).

Para não irmos mais longe, basta recordar os barulhos entre a Casa Civil do actual presidente da República e Mário Crespo, entre uma mão cheia de jornalistas e Sócrates, entre o "Público" e Relvas ou entre António Costa, na vertente presidente de Câmara, com o mesmo "Público". Costa, porém, não é um cidadão comum quando lê um jornal, escuta a rádio, vê televisão ou navega nas "redes sociais".

Por isso as suas reacções no campo das liberdades públicas, onde se inclui a de expressão e a de informar, interessam-me enquanto eventual chefe futuro de um governo democrático. Ou, como perguntava António José Saraiva, "acaso estamos destinados a ser eternamente meninos, como os índios do Paraguai, sabiamente tutelados pelos virtuosos padres jesuítas nas aldeias comunitárias do século XVII"? Talvez Costa ache que sim. E que, numa má declinação da Mertreuil de Laclos, é a sua própria obra.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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