Opinião

Ao cuidado do dr. Passos Coelho

Ao cuidado do dr. Passos Coelho

Ao final desta tarde, a coligação PSD/CDS (e era boa ideia acrescentar "independentes" como em 1979) vai apresentar as "linhas orientadoras" do programa para as eleições legislativas que o doutor Cavaco marcará. Com a "exigência" prévia, original, de que delas brote uma governação maioritária que não reclamou a quem de direito em 2009. Há décadas que tais eleições se destinam menos a apreciar programas do que a escolher um primeiro-ministro. A revisão constitucional de 1982 consagrou esta espécie democrática de "presidencialismo de chanceler" que concorre com o sufrágio presidencial propriamente dito. O chefe do Governo só indirectamente, pela via parlamentar, depende do chefe de Estado. Este apenas pode remover o outro dissolvendo o Parlamento, ou aceitar a sua substituição se a maioria parlamentar nisso convir. Passos Coelho concorre, pois, à sua própria sucessão num contexto de liderança incontestável da referida coligação e do Governo em funções. Razão acrescida para não dar lastro a solturas infelizes de ministros, ou ajudantes deles, que se imaginam politicamente subtis: Paulo Portas pode ter muitos defeitos mas pensa sempre melhor que qualquer um deles. Dito isto, fica claro que defenderei, à minha maneira, a continuação de Passos Coelho à frente do Governo do país. Não estamos em condições nacionais e europeias para preferir aventureirismos revanchistas a um módico de estabilidade, segurança e prudência. A incerteza, a imprevisibilidade, o atomismo de uma crise que ainda não terminou, e de outra que pode seguir-se sem aviso prévio, não aconselham experimentalismos nem regressos ao passado e ao passivo depois dos sacrifícios sofridos e, em tantos casos, em curso. Passos Coelho e a coligação têm agora a obrigação política e moral de se despedir do austeritarismo financista, das abstracções liberalóides dos últimos anos e da pequena burguesia de espírito que triturou gratuitamente amizades e lealdades. E, sem ceder em verdade, rigor ou à demagogia, assegurar pura decência de vida às pessoas. António Costa não o pode fazer. Está sentado sobre o ressentimento; sobre a destituição brutal de uma liderança legitimada pelo voto partidário e duas vezes nacional; sobre o espectro que nos trouxe irresponsavelmente até aqui, à necessidade extrema daqueles sacrifícios, e na solidão política de quem exibe por companhia futura rostos exauridos de passado. As coisas são o que são.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Recomendadas

Conteúdo Patrocinado

Outros conteúdos GM