Opinião

Merkel não foi a Castelo de Vide

Merkel não foi a Castelo de Vide

Agosto, mês de férias, feiras e festas, manteve o país em remanso relativo. Só não foi absoluto por causa das eleições o que obrigou os protagonistas delas a alguma movimentação. O "povo", pareceu-me, absorveu as férias, as feiras e as festas até ao tutano e desprezou os ruídos que, de vez em quando, lhe chegavam do folclore partidário. O que pode ser um sinal interpretável para Outubro: a política não consta "inequivocamente" da lista de prioridades do "povo" como desejam os principais candidatos à pastorícia directa da nação. Mesmo assim houve esforços.

O PS acampou a juventude. O PSD ofereceu-lhe a habitual academia de Castelo de Vide. Apareceu uma candidata presidencial e desapareceu outro que antes de ser já não era. O dr. Passos, por força das circunstâncias, anda mais "social" na retórica mas carrega o Novo Banco às costas. O dr. Costa anda o que for preciso e mesmo assim pode não chegar. O dr. Portas, e como estão perfeitos um para o outro, prepara um talk show com a D. Heloísa Apolónia. Jerónimo espera mais deputados. E o Bloco é a Mariana Mortágua e basta. Não se dá praticamente pelos "novos" que, aliás, não fizeram muito para que se dê por eles. Sucede que fora desta pequenez caseirinha a Europa, a que nós estamos ligados mais pelo tratado orçamental do que por qualquer outra coisa, ficou obrigada a encontrar-se consigo própria (história, "valores", "princípios", economia, etc.) por causa dos chamados migrantes e refugiados.

Durão Barroso, o mais bonzo presidente da Comissão Europeia dos derradeiros tempos, passeou por Castelo de Vide a frivolidade que o tornou internacionalmente famoso. Sobre isto referiu que a Europa terá sempre as portas abertas mas não escancaradas. A Hungria ou a Sérvia - países cujo passado não os recomenda especialmente em matéria de direitos humanos - "aprenderam" mais depressa a "lição" de Barroso do que a rapaziada laranja. Foi preciso Merkel para retomar um olhar europeu, sensato e cosmopolita, sobre esta catástrofe. A Alemanha política e "da indústria" dispõe-se a receber 800 mil pessoas e reprova sem hesitações comportamentos xenófobos. Desafia, com a autoridade de quem pagou o preço elevado da devastação física e moral, a restante Europa, a que cabe na indigência oportunista dos Barrosos de Castelo de Vide. A chanceler, para já, devolveu uma "ideia de Europa" à Europa. E é dos textos que quem salva uma vida salva a humanidade inteira.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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