Opinião

Passos, Costa e a comédia de enganos europeia

Passos, Costa e a comédia de enganos europeia

Na segunda-feira de manhã, em Bruxelas, Passos Coelho apareceu sem sono aos jornalistas. Afirmou, sorrindo mas sem se rir, que tinha acabado de ajudar a "desbloquear" uma coisa a que chamou de "acordo", ainda por cima "equilibrado", entre a "Europa" e um Estado-membro. Na sua alegre inconsciência, Passos dava força metafórica ao famoso verso de Fernando Pessoa: ele era a ceifeira, "julgando-se feliz talvez", a vida a imitar pateticamente a arte. Porque, na realidade, de Bruxelas apenas saiu um "acordo transitório", leonino para a Grécia e para a Europa que já não existe, que o reeleito idiota do Eurogrupo (essa ficção administrativa que junta os evangelistas do sr. Schäuble) esclareceu só poder vir a tornar-se "definitivo" daqui a dois meses. E saiu porque uma "troika" informal constituída por dois "eurozonos" - a Itália e a França - e um terceiro, o sr. Obama, fracturaram a ascendência insuportável da Alemanha sobre a mansidão alheia.

Porque a Alemanha sublima, através do seu Governo de "bloco central", aquilo que pretende impor ao resto da Europa: governos de marca branca, ora mais sociais-democratas, ora mais liberais, mas certinhos e obedientes à contabilidade não simplificada do "seu" euro do qual, na verdade, é ela que devia sair. Se Tsipras vir hoje aprovado o "acordo transitório" no Parlamento grego, não perde nem menos nem mais do que a Europa tem vindo a perder com a consentida supremacia luterana, ex-Alemanha de Leste, protagonizada pela sra. Merkel e os seus aliados nórdicos. Passos Coelho e António Costa, o primeiro directa e infantilmente, e o segundo louvado provincianamente no remoto Hollande, reivindicaram parte activa nos "sucessos" do "acordo" a pensar nas eleições de Outubro.

Sucede que esta comédia de enganos também inclui uma alínea não escrita nos "acordos": não vale a pena falar em programas eleitorais ou de governo domésticos. Um qualquer "Eurogrupo" ilegal ou um qualquer Conselho Europeu "decisivo" destroem, em questão de horas, quaisquer veleidades soberanistas intoleráveis. O que favorece a abstenção no "arco", com a consequente ausência de maiorias, e a fixação de pequenos eleitorados "tradicionais" onde não existem Frentes Nacionais, Podemos ou Syrizas. Citado por Manuel Maria Carrilho em "Pensar o que lá vem", Jean-Luc Gréau tem razão. A Europa vegeta de tal forma sob o signo da manipulação que evoca mais o que se fazia na antiga União Soviética do que o defunto virtuosismo político que a criou.

JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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