Opinião

Primavera sem rumo

O marechal António de Spínola que, sendo um militar valente, não era propriamente uma "cabeça" política, escreveu em tempos um livro a que deu o título de "País sem rumo". Antes, Spínola achara (coitado) que Portugal tinha "futuro" e prodigalizara o livrinho de antes de Abril que lhe valeu, a ele e a Costa Gomes, a demissão dos mais altos cargos da hierarquia militar. Mas, como centenas de outros antes e depois dele, atinha-se às circunstâncias (o alegado impasse da guerra em África e, a seguir, a revolução e respectivas sequelas) embora em muitos dos pressupostos de fundo, digamos assim, tivesse razão. Spínola julgou que podia "salvar" Portugal, esse ente mítico a partir do qual alguns prosélitos pretendem narrar a "portugalidade" com "a velha armadura quinhentista" (o termo é de Eça) vestida. Ora, Portugal está (como se alguma vez tivesse deixado de estar) sem rumo notório ou futuro garantido salvo nos beijinhos e abraços. Trabalha-se, quando se trabalha, para o momento e para o "sic transit" das televisões. A RTP, por exemplo, praticamente só trabalha para ela própria nestas patéticas comemorações de 60 anos "de carreira" onde se safa a disponibilização informática do arquivo. A política está sem razão e sem imaginação. O radicalismo finge criticar os "desvios europeístas" e liberais do Governo socialista nos orçamentos e no sistema financeiro. Os socialistas, que adoptaram a "doença infantil" do radicalismo para se manter no Governo, fingem que governam com o apoio equilibrista do radicalismo e de Belém, aumentando impensadamente o nível da dívida e tapando o sol com várias peneiras. Nas televisões, onde fervem a redacção única e a frivolidade permanente, peneira-se melhor e mais depressa com a ajuda de um comentadorismo torpe, negocista e alinhado pelo respeitinho regimental. Por fim, também a Oposição está sem rumo e sem protagonistas entusiasmantes. A Caixa Geral de Depósitos, e o "financês" em geral, não podem esgotar as prédicas de Passos Coelho nos variados circuitos de carne assada partidária por onde anda de "portugalidade" fútil na lapela. A escolha da candidata para Lisboa é um ponto de chegada e não um novo ponto de partida. Não é, aliás, uma questão pessoal. É política e, por aí, Cristas já ganhou porque o PSD empurrou-a de "seguro de vida" dos votos do CDS para candidata verosímil à presidência da Câmara de Lisboa. Uma Primavera que começa sem rumo geral quando, diria Eça, só "é útil balar com os carneiros".

* JURISTA

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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