Opinião

Que "tempo novo"?

Começou mal o "tempo novo" anunciado pelo primeiro-ministro no Natal. A maioria aritmética que suporta o Governo no Parlamento quis abrir o cordão às bem-aventuranças materiais e espirituais caras às esquerdas: costumes, aumentos meramente simbólicos em prestações sociais e recuperação faseada de salários. Já quanto à sobretaxa, um imposto atípico e inconstitucional, e em relação à chamada "contribuição extraordinária de solidariedade" (que nome extraordinário) as esquerdas torceram o panfleto e aceitaram a manutenção suavizada do austeritarismo. As direitas opuseram-se a tudo como se alguém lhes viesse agradecer mais adiante o exercício. Sucede que o fatal elefante penetrou com estrondo na sala. O bicho acudia por Banif, era alimentado desde 2012 por dinheiros públicos - apesar de ser quinto ou sexto em ordem de importância para o "sistema" - e não havia meio de o conseguirem "reestruturar" ou vender. O anterior Governo enviava planos sobre planos para Bruxelas. E Bruxelas devolvia-os por serem alegadamente inconsistentes. A "autoridade de supervisão e de resolução", o Banco de Portugal, jurava pela saúde do estabelecimento. Depois começaram os mistérios. Antes da 25.ª hora, um rodapé televisivo deu azo a que, em apenas cinco dias, mil milhões em depósitos tivessem trilhado os caminhos da obscura "diáspora" própria destes depósitos. Seguiu-se o guião habitual desde o BPN: ameaça de liquidação, resolução, venda de um dia para o outro em condições amplamente favoráveis para o comprador e mais injecção de dinheiros públicos, para já, na ordem dos três mil milhões de euros. Tudo somado, e contabilizadas as "ajudas" dos contribuintes para o glorioso sistema financeiro português e os seus ruinosos "modelos de negócio", vamos em cerca de 13 mil. Milhões, evidentemente. Parece que não se podia esperar pelas novas regras europeias de resolução bancária que entram em vigor daqui a quatro dias. Pelo menos foi isto que justificou a queda brutal do elefante no colo dos contribuintes. Através de um orçamento rectificativo aprovado pelo PS, com a abstenção do PSD, e os votos contrários das restantes bancadas. Ironicamente o Capital esboroou o "tempo novo" da maioria parlamentar aritmética e recuperou o tempo velhíssimo do negocismo financista gerido há décadas pelo "centrão" político. Por isso não apreciei ver o meu candidato presidencial, Marcelo Rebelo de Sousa, confundir a complacência "sistémica" - que apelidou de "consenso de regime" - com o consenso do país.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

JURISTA

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