Opinião

O referendo que falta

Em 2012 os credores perdoaram à Grécia - significa que prescindiram de receber - cerca de metade da sua dívida, num montante de 105 mil milhões de euros, superior à totalidade da ajuda externa concedida a Portugal. As contrapartidas seriam reformas estruturais, num país que espantava o Mundo por casos insólitos, com exemplos em salários pagos a 45 jardineiros pela manutenção de quatro árvores à porta de um hospital, a 50 motoristas para condução de um carro oficial, pensões vitalícias a milhares de jovens mulheres por serem filhas solteiras de funcionários públicos falecidos, milhares de pensões de reforma a pensionistas mortos, subsídios a trabalhadores ferroviários para lavarem as mãos, prémios a sete mil trabalhadores por carregarem envelopes, ou subsídios a filhas de militares, pelo simples facto de o serem, até casarem ou atingirem 28 anos de idade.

Seis meses bastaram para o Syriza recusar compromissos e arruinar a Grécia. O referendo foi o último passo de uma fuga pela qual Alexis Tsipras transferiu para todo um povo as responsabilidades da absoluta incapacidade na governação. No rescaldo do "não", diz querer agora mais "um corte de 30% da dívida" e um período de carência de 20 anos. E a esquerda portuguesa acha normal.

Portugal - que nunca foi perdoado num cêntimo, honrou a palavra e em quatro anos cumpriu o memorando, fez cessar a intervenção da troika e já se financia nos mercados com as melhores taxas de juro da Zona Euro - foi solidário com a Grécia, numa ajuda que representa uma exposição de cerca de 2,6 % do PIB, equivalente a 4,6 mil milhões de euros.

Mas para a esquerda portuguesa isso não importa nada. Perdoe-se. Perdoe-se tudo. Portugal terá de prescindir de dinheiro que não abunda e por cá também faz falta? Não importa. A festa estava porreira, pá. Eram bandeiras na praça e muitos abraços. Que maravilha. A Grécia disse não à chantagem. A austeridade acabou.

Sucede um pormenor. No referendo votaram os gregos. Não os cidadãos dos restantes países da Zona Euro.

Os gregos disseram que querem mais perdões e mais dinheiro, sem sacrifícios, sem reformas, sem contrapartidas. Falta os outros cidadãos europeus, principalmente dos países resgatados que não beneficiaram de nada do que aos gregos concederam, mas alcançaram o que os gregos não conseguiram, poderem dizer se aceitam prescindir do que emprestaram e entregar mais dinheiro de poupanças, contribuições e impostos, a um país governado por um Syriza que se comporta assim.

Afinal, nem só de gregos se faz uma democracia.

*DEPUTADO EUROPEU

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