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O desemprego de Passos

O desemprego de Passos

1 Marcelo Rebelo de Sousa classificou a declaração como clara falta de inteligência. É, sem dúvida, sobretudo vinda de um político, do atual primeiro-ministro, que, apesar do estado em que se encontra o país, aspira voltar a ganhar as eleições. Mas é muito mais do que isso: é uma agressão a todos, e são muitos milhares de portugueses, os privados do direito à dignidade que o trabalho confere. Eis a declaração: "Alguém que está desempregado algum problema deve ter, senão teria conservado o seu emprego". Esta visão cultural prejudica quem vai a uma entrevista de emprego, disse o primeiro-ministro. A intenção de Pedro Passos Coelho até pode ter sido bondosa. Vamos acreditar. O primeiro-ministro não partilha da perigosa visão cultural do desemprego, mas verbalizá-la numa entrevista em horário nobre é, no mínimo, de uma enorme falta de sensibilidade social. De tamanha inabilidade, que Clara de Sousa, a entrevistadora, sem deixar passar em claro o deslize, desafiou Passos a colocar-se no papel do desempregado que em casa o estaria a ver e ouvir. O primeiro-ministro acredita que o desempregado, sem posto de trabalho quem sabe se por incompetência de algum gestor - esse quase sempre inocentado -, o compreenderá. Afinal, falamos do mesmo primeiro-ministro que considerou o desemprego uma oportunidade para mudar de vida (disso não restam dúvidas), do mesmo primeiro-ministro que nos convidou a emigrar. Tudo generosas intenções de um homem que apenas e só pretende incentivar, em cada português, a faceta adormecida de empreendedor.

2 Milhares de estudantes iniciaram, ontem, o processo de candidatura a um curso superior. Agora, são em menor número a fazê-lo. Porque há menos condições económicas para prosseguir estudos, mas também porque se criou a ideia de que um canudo de pouco vale. Ou seja, não muda nada, quando se trata de arranjar emprego. Outra ideia falsa, perigosa numa sociedade democrática, que de tantas vezes repetida se torna verdade incontestada. Os números estão aí a prová-lo. Uma licenciatura, com efeito, não é garantia de emprego. Mas as estatísticas revelam que o desemprego é sempre menor entre detentores de um grau académico, em relação à média nacional. Por outro lado, pôr o foco da formação na empregabilidade é uma visão cruel da realidade. A formação dos cidadãos é equivalente à riqueza do país - e não perceber isso pode ser fatal para o futuro.

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