"Vêm cá montar um quartel?". D. Celeste atravessa o portão de casa e olha incrédula para os militares que descem a rua abaixo. Pára no meio do caminho, para entender o porquê do aparato militar que em minutos tomou conta da aldeia da Pena, em Góis. Assim que lhe explicam que a "tropa" anda por ali para prevenir os incêndios, D. Celeste solta a língua. Fala do que sabe, do que ouviu dizer e até do que suspeita que se passa para lá dos montes que lhe rodeiam a casa. "Os meus bisavós, avós e pais só viram passar o fogo naquele penedo uma vez. Mas agora passa de sete em sete anos, por mão e mandado".
O coronel Diamantino Correia, responsável pelos 147 militares que operam na região da Lousã e do Buçaco, ouve pacientemente e aproveita uma paragem de D. Celeste para ganhar fôlego. Finalmente, passa a mensagem que levam os homens do Exército a bater às portas das aldeias. Sensibilizar as populações para os cuidados a ter nas matas durante os meses de Verão. "Não queremos substituir os cartazes ou os avisos. Vamos é reforçar a mensagem", explicou o oficial aos jornalistas.
Aos olhos da população, esta é apenas a face mais visível do trabalho que os militares têm a cargo até 30 de Setembro, de Norte a Sul do país. Resulta de um protocolo assinado entre a recentemente criada Direcção-Geral dos Recursos Florestais e o Exército Português, no sentido de sistematizar o trabalho pontual de apoio dos militares, durante a época dos fogos, que prevê, além da sensibilização da população, trabalhos de engenharia civil para a abertura de acessos e o patrulhamento das florestas.
A situação do ano passado obrigou à reorganização de todos os corpos que entrevêem na luta contra as chamas e à integração dos militares num combate que se pretende eficaz e sistemático. E o Exército reconheceu na tarefa uma oportunidade de excelência para cumprir vários dos pressupostos que norteiam a sua acção - prestar um serviço útil à comunidade, num cenário real, que testa e treina a operacionalidade dos homens no terreno.
O aquartelamento levantado no aeródromo da Lousã prova que se trata, sem dúvida, de uma missão militar, orientada para um objectivo civil - manter as chamas longe da região.