Não, caro leitor, não se trata de nenhum preito de homenagem ao Marquês de Pombal. Nem este cronista jamais o faria, que o estadista "modernizador" não é figura com que simpatize demasiado. Aqui, elogia-se o velho jardim da Praça do Marquês, pela beleza perene toda feita de estórias e de resistência. Em particular, afiança-se a coragem dos vetustos plátanos, aquela coragem vegetal e estática que é simples existir, existir e estar ali, de pé, ao lado de tudo o que mexe, do vento e do tempo - suas cicatrizes, suas mágoas, mas também primaveras gloriosas e invictas.
Vale a pena olhar: mesmo agora, decepadas umas, exiladas outras, incólumes raras, as velhas árvores do Marquês pagam o preço do progresso - mas com que classe, com que soberba insistência em continuar sendo árvores, apesar de tudo - bem merecem uma lembrança, enquanto se espera que a tormenta vá e não volte (temos sempre essa esperança) e as coisas voltem a ser como sempre as conhecemos.
A verdade é que as obras do Metropolitano foram severas para o Jardim do Marquês, porventura como não o foram com nenhum outro local do Porto de significado comparável. Mesmo se nos lembrarmos de outras intervenções discutíveis ou preocupantes no plano ambiental - e sem dúvida de colisões frequentes entre o caminho do Metro e muitas das pobres árvores portuenses - é no Marquês que mais se lamenta o não ter havido outro sítio onde se pudesse localizar a estação.
Claro, dir-se-á agora, de nada serve chorar sobre o leite derramado. Ninguém contestará a importância do novo meio de transporte e suas potencialidades, e poucos hão-de deixar de louvar o enorme esforço despendido e até feitos memoráveis de engenharia e de argúcia na carreira do Metro pelo granito da cidade. Mas a destruição causada às árvores e a um jardim histórico como o do Marquês (que me perdoem o Campo 24 de Agosto, os Aliados e outros) tem que ser contabilizado no passivo dessa obra. Como prova de insensibilidade e de falta de cuidado.
Até meados do século XIX, ali era a Alameda da Aguardente, com extensos renques de árvores sombreando a antiga estrada para Guimarães. Durante o Cerco do Porto, em 1832, a alameda frondosa passou a ser parte das linhas de defesa dos liberais. Aquando da comemoração do centenário da morte do admirado e temido marquês, deu-se a alteração do nome e mudanças no terreno. O jardim, após longas e diversas vicissitudes, foi ganhando forma próxima da actual - com os plátanos altaneiros a dar-lhe personalidade, sombra no Verão e tapete dourado de folhas no Outono. O lago romântico, o coreto de ferro e a bem mais recente e pequena biblioteca, são elementos vitais do espaço verde e histórico. Pergunta-se: o que se prepara para depois de acabadas as obras? Sobre o imenso buraco/estação, o quê? Que reparação para o jardim ofendido?