Os planos de revitalização da Baixa portuense, concebidos por encomenda da Sociedade Porto 2001, ficaram esquecidos. Mesmo os projectos de requalificação urbana que saíram do papel estão incompletos. A denúncia é repetida pelos arquitectos que desenharam propostas para as quatro áreas da Batalha, da Cordoaria, de Carlos Alberto e de Sá da Bandeira.
As obras, concretizadas pela a Capital Europeia da Cultura, são apenas uma pequena parte das ideias desenhadas. Após o debate e as inaugurações, o documento foi colocado na gaveta. "Não são invenções loucas de meia dúzia de idealistas. Dezenas de pessoas estiveram envolvidas neste trabalho e reflectiram sobre a Baixa. Se tivesse havido uma dinâmica posterior e não fosse feita tábua rasa, alguns projectos podiam ter sido concretizados", sustentou, ontem de manhã, Alexandre Alves Costa, que, ao lado de Sérgio Fernandez, estudou a zona de Sá da Bandeira.
O encontro nacional da Ordem dos Arquitectos, que decorreu na sede da Associação dos Industriais de Construção Civil e Obras Públicas (AICCOP), no Porto, debruçou-se sobre a intervenção da Porto 2001. Também Virgínio Moutinho - cujo projecto para a Praça de Carlos Alberto foi posto de lado por vontade do ex-vereador do Urbanismo da Câmara do Porto - recordou que, quando elaborou as propostas, acreditava que o arranjo do espaço público "seria a primeira fase do trabalho", tal como Alves Costa. Este arquitecto reconhece que não era possível avançar, de imediato, com todas as propostas, por implicarem a realização de acordos entre entidades públicas e proprietários privados. No entanto, nada mais se fez.
A discussão político-partidária inquinou o trabalho deixado pela Porto 2001. É, pelo menos, essa a percepção do arquitecto Nuno Grande, entendendo que a requalificação urbana "foi encarada pelo poder político anterior e actual como um fim". E não silencia a crítica: "Há um certo cinismo na forma como estes projectos foram interrompidos".
Carla Sofia Luz