Inês Schreck Textos Leonel de Castro Fotos
Encerrado ao domingo: descanso semanal. Uma, duas, três... centenas de lojas com as portas fechadas e as grades a esconder as montras com as últimas colecções. Os transeuntes passam, olham, namoram uma ou outra peça, mas a compra fica adiada. Provavelmente, para nunca. Afastam-se com um desabafo de frustração. "Que pena". Na Rua de Santa Catarina, no centro do Porto, passeavam, ontem, centenas de pessoas. Os poucos (muito poucos, aliás) que arriscaram abrir os estabelecimentos certamente não se arrependeram.
Numa "ronda" pela artéria mais comercial da cidade, o JN encontrou apenas três lojas abertas, excluindo o shopping Via Catarina e a Fnac. Um café, pejado de clientes deliciados com os bolos expostos numa vitrina, um pequeno espaço de bijutarias e uma loja de vestuário. No interior da "Rainha das Meias", José Magalhães rema contra a maré.
"Acho uma estupidez não estarmos abertos ao domingo", opina, de imediato. O sócio-gerente da loja propôs, em tempos, à Associação de Comerciantes do Porto, um sistema de funcionamento dos estabelecimentos por rotatividade. Mas a ideia não foi bem acolhida. "Não aceito que digam que o negócio está muito mau, que não têm dinheiro para pagar aos empregados. Que venham eles, eu também não tenho", alega. A conversa é interrompida com a entrada de dois clientes. Mostra os produtos e factura.
Domingo pode não ser o melhor dia para o negócio, principalmente se chover, mas é como diz o ditado: "Em terra de cegos, quem tem olho é rei". As poucas alternativas deixam o campo aberto a quem arregaça as mangas. Se o cenário se invertesse, todos saíam a ganhar. Se o cenário se invertesse, as soleiras das portas deixavam de ser o local de descanso de pedintes. Se o cenário se invertesse, "havia muito mais animação". É nisto que acredita Maria Carvalho. "Eles têm que descansar, mas devia haver um esquema de alternância", sustenta. E segue rua acima, no seu passeio dominical. Sem compras.