Pintar de cinzento um edifício da cidade pode não ser mais do que um pequeno e insignificante facto, mas também pode ser um sinal (mais um) que ilustra a forma como os poderes públicos encaram hoje as questões da cultura, do património e da cidadania. Diga-se, no entanto, e desde já, que se trata de um sinal preocupante. Então porquê?
Existe na Rua da Constituição, na cidade do Porto, aí por alturas do dispensário da BCG, um notável exemplar da chamada arquitectura moderna, que é uma escola projectada pelo arquitecto Alexandre de Sousa aí por volta dos anos 50 do século passado. Trata-se dum exemplar notável, a vários títulos: porque se trata dum edifício extraordinariamente bem concebido do ponto de vista das suas características enquanto "objecto arquitectónico", tanto do ponto de vista do da sua composição geral como do tratamento dado às diferentes partes que o constituem; porque está implantado de forma a equilibrar a necessária discrição com a desejável monumentalidade que deve acompanhar a inserção urbana dos edifícios públicos; porque, tratando-se duma escola, terá escapado à imposição do chamado "estilo oficial" que caracterizava, naqueles tempos de ditadura, a arquitectura os edifícios do Estado; porque sendo um edifício em que é absolutamente evidente a utilização culta, elegante e muito segura dos elementos que caracterizam a arquitectura da época em que foi concebido e, ainda, porque tratando-se duma arquitectura que segue uma "escola" de clara referência internacionalista, se integrou de forma serena no contexto de certo modo "tradicional" daquela zona da cidade onde convivem arquitecturas de muito diferentes filiações e épocas muito distintas.
Com efeito, uma das características desta arquitectura, tal como a generalidade das da sua "família", era o original uso da cor no contexto do que foi o "movimento moderno". No essencial, e privilegiando apenas uma leitura do edifício a partir da Rua da Constituição, pode dizer-se que a sua expressão exterior era o duma caixa pintada dum vermelho forte que, por sua vez, envolvia um plano de fachada, onde se organizavam em bandas horizontais, janelas corridas pintadas de cor branca separadas por parapeitos opacos, de textura fortemente ondulada, ao jeito das placas de "fibrocimento", pintados de azul primário. As empenas laterais - os lados da caixa - eram constituídas por painéis cerâmicos de cor ocre.
Contudo, o uso da cor na arquitectura em geral e, em particular, nos edifícios construídos no imediato pós-guerra, não é uma simples questão de gosto pessoal dos seus autores, não é um problema de estilo de quem os concebe nem, sequer, uma questão de moda e, muito menos, de circunstância. Trata-se, antes, duma questão fundamental para a compreensão da arquitectura a que a cor está agarrada, do papel que os edifícios cumprem na formação da cidade e, consequentemente, para a compreensão do conceito de cidade como habitat que o pós-guerra gerou e a partir dele se desenvolveu.
Ora, este notável exemplar, que conseguiu sobreviver incólume a 50 anos de tropelias artísticas, arquitectónicas e urbanísticas, acaba de ser completamente descaracterizado e, portanto, amputado, duma boa parte do seu significado arquitectónico, urbanístico e cultural: foi integralmente pintado de cinzento! Alertando-me para o facto, recebi insistentes apelos de cidadãos para que fosse possível parar o disparate. Efectuei as diligências que a minha consciência de cidadão me exigiam. Sem resultados. Convicto da insensibilidade dos responsáveis, resta-me, agora, este (fraco) grito de protesto e revolta mas que não é só meu. É que a ignorância no poder é perigosa.