APorto Vivo - Sociedade de Reabilitação Urbana (SRU) nasceu ontem à tarde e promete obras nas ruas no início do próximo ano. Dezenas de edifícios municipais serão comprados à Câmara do Porto, para reabilitar a custos baixos com investimento privado e de mecenas e alienar a casais jovens a preços atractivos. É o primeiro teste de fogo da SRU, pois a recuperação dos cinco quarteirões prioritários (Palácio das Cardosas, Cais das Pedras e as praças do Infante, de D. João I e Carlos Alberto) só avançará no segundo semestre de 2005.
Em dia de sepultar o passado de "erros", como o congelamento das rendas, e dar o "passo mais importante do mandato", o presidente da autarquia, Rui Rio, convidou o presidente da República, Jorge Sampaio, que não esqueceu a polémica na génese da sociedade, roubando sorrisos às dezenas de personalidades presentes na cerimónia. "No Porto, há sempre uma controvérsia", assinalou Jorge Sampaio, assumindo a quota-parte de responsabilidade no atraso do publicação da lei, que permitiu constituir a Porto Vivo.
No passado, ficam também as experiências de reabilitação urbana do CRUARB e da Fundação para o Desenvolvimento para a Zona Histórica com fundos municipais, embora o arquitecto Rui Losa - antigo director do CRUARB - tenha sido convidado para trabalhar com a sociedade. "O processo que vinha sendo utilizado reabilitou cerca de 10% do nosso Centro Histórico nos últimos 25 anos. Não podemos ter, daqui a mais 25 anos, apenas 20% do Centro Histórico reabilitado. Não podíamos continuar de braços cruzados. Teremos de ter daqui por menos de 10 anos toda a Baixa e um Centro Histórico com a vida e a pujança que ela já conheceu", criticou Rui Rio, desafiando os construtores civis a mudar de rumo e a investir num "projecto que vai atravessar vários Executivos".
Para reabilitar 25%do território do Porto, o presidente empossado da SRU, Arlindo Cunha, garantiu que os "direitos dos cidadãos (que já habitam na Baixa) serão preservados, mas não deixarão de serem utilizados todos os instrumentos que a lei permite", nomeadamente acções coercivas e de expropriação dos edifícios. E é o equilíbrio das classes sociais residentes no centro portuense que mais preocupa Jorge Sampaio, face a experiências semelhantes em países europeus.
O presidente recorda as conclusões dos recentes estudos em França, indicando que houve uma afluência de habitantes ricos ao centro das cidades, relegando as famílias mais carenciadas para a periferia. "Fiquei contente por saber que há uma preocupação pela diversidade de ofertas", concluiu. A pensar na diversidade, o líder da sociedade, Arlindo Cunha, deu conta da aquisição de dezenas de edifícios municipais, com o aconselhamento técnico das associações de construção civil que analisarão as melhores formas de reabilitar a baixos custos. O projecto, que arranca no início do próximo ano, é o momento de "avaliar o grau de risco" dos investidores privados na renovação.