Éuma abóbada desmedida suspensa no céu, que guarda a luz do mar durante o dia, para a projectar à noite. Em jactos vermelhos e brancos, como as redes de pesca, a escultura, visível a longa distância, como os faróis instalados na costa portuguesa, empolga-se com o vento, que a trespassa sem a derrubar, concedendo-lhe o movimento de uma onda a envolver o mar.
É para os pescadores a homenagem hasteada na Praça Cidade S. Salvador, em Matosinhos, na fronteira com o Porto. E resulta do projecto de requalificação da marginal Sul, integrado no Programa Polis, que abrange 28 cidades (ver página ao lado).
À medida que a objectiva do olhar se aproxima, a instalação ganha outra configuração, auxiliada pelo poder dos holofotes, colocados na rotunda relvada. No coração da efígie, está hospedado o fundo do oceano.
Não é a primeira vez que Janet Echelman, a escultora norte-americana responsável pela imagem superlativa, intervém em espaços públicos, criando volumetrias ilimitadas, dotando-as, através do seu material privilegiado - as redes -, de uma proporcionalmente inversa leveza.
"Comecei a usar esses componentes em finais da década de 90, depois de uma estadia no Instituto Nacional de Design, na Índia", explica a autora ao JN. "Tive oportunidade de estudar os métodos ancestrais de construção de sólidas esculturas de bronze em pequenas aldeias piscatórias. Concluí que os largos buracos das redes de pesca eram a solução ideal para criar espaços volumétricos com grande luminosidade, contrastando com a sólida escultura de metal". Echelman tem esculturas de rede espalhadas pelo mundo de Madrid a Nova Iorque, do Texas à Lituânia.